BOTAFOGO F.C. DÉCADA DE 60
MEIO SECULO DE LEGENDA
Por Alceu Mendes de Oliveira Castro
A data inesquecível de 25 de setembro, assinala o quinquagésimo aniversário de estupenda façanha botafogueasse, marco indelével na História do Futebol Carioca, qual foi o da conquista do Campeonato de 1910, após impressionante vitória de 6x1, sôbre o quase invencivel conjunto tricolor.
De fato, o idealismo de Oscar Cox implantara desde o início do século, o futebol carioca e criara êste gigante que é o Fluminense Football Club que já nascera grande.
Campeão absoluto no primeiro certame, o de 1906, contra a sua hegemonia logo ergueu-se nosso jovem animoso esquadrão que, esmagado no primeiro ano e no turno de 1907, quase sem modificações, abateu-o sensacionalmente por 4x2 no returno, empatando o campeonato, que jamais foi decidido, no primeiro grande caso de nosso soccer.
Mas, em 1908 e 9, o Fluminense recuperou e manteve o título, embora nos quatro jogos contra nós, só tivesse vencido um, empatando os demais.
Cheio de esperanças, tendo em sua presidência a máscula figura de Joaquim Antônio de Souza Ribeiro, como capítain geral Hugh Edgar Pullen os membros do "ground committe", Pedro Martins da Rocha e Anselmo Mascarenhas, o BOTAFOGO iniciou a temporada legendária.
Da equipe antiga, permaneceram Coggin, Pullen, Dinorah, Rolando, Lulú e Emanuel, sendo preenchidas as vagas por três garotos do quadro secundário — Abelardo, Mimi e Latira e dos paulistas Carlos Lefévre e Décio Vicari.
Poucos, entretanto, acreditavam em seu esquadrão que, estreiando a 22 de maio, baqueou por 4x1 frente ao América, de Belfort Duarte, o que foi o único tropêço.
E de fato, sucessivamente, o BOTAFOGO sobrepujou todos os seus adversários, desenvolvendo uma atuação impressionante: Riachuelo, por 9x1; Fluminense, na então rua Guanabara por 3x1; Haddock Lobo, por 7x0 e Rio Cricket, por 6x0, encerrando o turno; Rio Cricket, novamente por 5x0; Riachuelo, por 15x1 e América, por 3x1, em boa revanche.
No meio tempo, a 15 de agôsto, o "BOTAFOGO excursionara a São Paulo e, no tradicional Velodromo, esmagara por 7x2, deixando a todos assombrados, a formidável equipe da A . A . das Palmeiras, bicampeã paulista.
Assim foi, com intensa emoção, que o nosso meio esportivo viu raiar o domingo, 25 de setembro de 1910, que assinalava o decisivo jogo do returno entre BOTAFOGO, com dois pontos perdidos e Fluminense, com três derrotas do turno e empate com o Rio Cricket.
Desde cedo, nosso inolvidável campinho da rua Voluntários da Pátria nº 459, bem em frente à estação de bondes da Cia. Jardim Botânico, começou a receber uma ávida multidão, cheia de interêsse e curiosidade, animada pela graça e pela beleza das torcedoras da época, que jamais poupavam seus gritinhos de incentivo aos atletas em luta.
Iniciou-se a célebre jornada com o prélio de segundos quadros e o BOTAFOGO, com um goal impressionante do saudoso Luiz de Paula e Silva, o querido "Vovô", consagrou-se campeão da categoria, sob palmas estrepitosas.
Ninguém mais respirava quando ao apito do referee A. H. Hassell, que era o goleiro do Rio Chricket, alinharam-se as seguintes equipes: "BOTAFOGO": Coggin, Pullen e Dinorah, Rolando, Lulú e Lefévre, Emanuel, Abelardo. Décio, Mimi e Lauro. "Fluminense": Watermann, Felix Frias e Paranhos, Nery, Mutz e Galo, Minar, Osvaldo Gomes, E. Cox, Gilbert Hime e Borgerth.
Como uma avalanche irresistível, o BOTAFOGO assaltou a meta tricolor e, aos três minutos. Abelardo, de cabeça abriu a contagem para, por mais duas vêzes, em um centro de Lauro (o segundo goal) e novamente de cabeça (o terceiro), beijar as rédes tricolores defendidas pelo consagrado Watermann!
Estava findo o primeiro tempo: BOTAFOGO 3, Fluminense 0. Ninguém podia acreditar... Recomeçada a porfia, o grande Lulú Rocha, ao obstar um, avanço do temível Edwin Cox, coloca a bola nas rêdes de Coggin, assinalando o único tento tricolor.
Era a virada, muitos pensaram... Mas ninguém resistiria ao BOTAFOGO naquela tarde apoteótica e mais três bolas impulsionadas por Mimi Sodré, aos vinte e cinco minutos; por Décio, com uma bomba de bico de pé, de vinte jardas e, novamente, por Décio, arrematando um passe de Abelardo, foram dormir nas rêdes tricolores.
Estava o BOTAFOGO, vencedor e Campeão. Nascia o "Glorioso" da legenda, titulo que ainda ostenta orgulhosamente, bradado naquela tarde de ouro, por uma multidão alucinada e em delírio.
Mais uma rodada — a 2 de outubro — e com 11 x0 sõbre o Haddock Lobo, o Glorioso encerrava sua estupenda campanha com dez jogos, nove vitórias, uma derrota, 66 goals pró e apenas nove contra, com um saldo impressionante de 57 pontos!
Atuaram os três irmãos Emanuel: Benjamin (Mimi) e Lauro de Almeida Sodré, Hugh, Edgar Pullen e Rolando de Lamare, nas dez partidas; Dinorah Candido de Assis, Luiz Martins da Rocha (Lulú), Carlos Lefévre e Abelardo de Lamare, em nove; Décio, em oito; Othon Baena em seis; Ernest Coggin, em quatro: Cândido Viana e Maurício Silva, em duas; Flávio da Silva Ramos e Jose Gonçalves do Couto (Juca), em uma, perfazendo um total de 16 jogadores.
Abelardo de Lamare, o maior forward de seu tempo foi o artilheiro, com 22 goals. Seguiramse-lhe Décio 14; Mimi 11; Rolando, 6; Emanuel 3; Lauro, 3; Lulú, 2; Dinorah, 2; Flávio 2 e Lefévre, 1.
Nosso segundo quadro participou de oito jogos (o Rio Cricket não concorreu a êsse torneio), com sete vitórias, uma derrota, 39 goals pró, seis contra, saldo de 33, atuando Adhemaro de Lamare, Luiz de Paula e Silva e Mário Fontenelle oito vêzes;
Gonçalves do Couto (Juca), 7; Augusto Paranhos Fontenelle, Cândido Viana, Carlos Hasche, César Gonçalves, Edgard Soares Dutra, Flávio da Silva Ramos e Nilo Rasteiro, 6; Carlos de Pino 4; Oscar dos Santos Cunha, 3; Ernest Coggin, Normann Hime e Pedro Martins da Rocha duas; Arthur César de Andrade e o Presidente Souza Ribeiro, uma, em um total de 18 atletas.
Meio século decorrido para na nossa tristeza, não mais existem Ernest Coggin; o abnegado e benemérito Hugh Edgar Pullen, falecido em 1959; Dinorah, zagueiro calmo e impassível, o maior de sua época, desaparecido em 1921; Décio Vicari, o tank, considerado o primeiro grande center forward brasileiro, célebre pelas bombas de bico de pé, falecido em 1947; Othon Baena depois famoso no Fluminense e no Flamengo; César Paula e Silva, Adhemaro Hasche e o grande dirigente Pedro Martins da Rocha.
Poderemos abraçar, entretanto, o grande Presidente Souza Ribeiro; o velho e bom Anselmo e os cracks Rolando e Lauro, hoje médicos ilustres: Lulú Rocha e Flávio Ramos, advogados; Carlos Lefévre, corretor; Emanuel Sodré, desembargador, honra de nossa magistratura; Abelardo, presidente do Banco Delamare; Almirante de Esquadra Benjamin Sodré, um dos maiores nomes de nossa gloriosa Marinha de Guerra; General Edgard Dutra, Juca Couto, Engenheiro Augusto Fontenelle, Dr. Mário Fontenelle. Engenheiro Arthur César de Andrade, Carlos de Pino, Normann Hime e muitos outros ligados à épica façanha.
Concluindo, recordemos que, não fosse aquêle goal de Valdo à última hora, a história ter-se-ia repetido no Maracanã, com a mesma marcha da contagem, na famosa tarde de 22 de dezembro de 1957, que assinalou os célebres — SEIS A DOIS — de Paulinho 5 e Garrincha, para satisfação, infinita de nossa brava torcida de hoje em dia.
Acervo particular Alceu Oliveira Castro Jungsted
Fonte: Boletim Oficial do BFR nº 166 de setembro de 1960
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