DE ELETRO A BOTAFOGO
De Eletro a Botafogo
O futebol não seria o que é hoje se não existisse o Botafogo. Nos anos seguintes à sua chegada ao País, em 1894, o esporte conquistou adeptos, mas ainda não fazia páreo ao remo, por exemplo. Certamente faltariam alguns ingredientes, como a rivalidade e a paixão, e o mérito de ter introduzido isso na "receita do futebol" cabe ao Glorioso.
Corria o ano de 1904 quando um grupo de jovens estudantes do Colégio Alfredo Gomes decidiu montar um clube de futebol para fazer frente ao Fluminense. Parece até uma história normal, não fosse a idade média desses garotos: 14 anos.
Sonhando em formar um time à altura dos presunçosos jogadores tricolores, Flávio Ramos teve a idéia durante uma aula de matemática e passou um bilhete para seu colega Emanoel Sodré. Estava escrito o seguinte: "O Itamar Taváres tem um clubinho de futebol ali na Rua Martins Ferreira. Por que não fazemos também o nosso no Largo dos Leões".
O futuro do Glorioso quase acaba por aí, quando o bilhete é interceptado pelo professor, o general Júlio Noronha. Mas, para sorte da nação alvinegra, o general passou um sermão nos garotos e, no final da aula, até deu força à iniciativa: "Eu apóio a idéia de vocês, contanto que seja discutida fora da sala."
Cerca de um mês depois, no dia 12 de agosto, os fundadores se reuniram na casa do conselheiro Gonzaga, na esquina do Largo dos Leõs (uma estação de bondes puxados por burros) com a Rua Humaitá. Eram eles: Flávio Ramos, Emanoel Sodré, Arthur César de Andrade, Jacques Raimundo, Carlo s Bastos Neto , Itamar Tavares, Basílio Viana Junior, Vicente Licídío de Cardoso, Eurico Viveiros de Castro, Augusto Fontinelli , e os irmãos Octávio e Álvaro Werneck.
Nessa primeira reunião , um dos presentes a idéia de levar um talão de cobranças do já extinto clube Electro para que os associados pagassem a primeira mensalidade: dois mil-réis.
De posse do talão, Itamar Tavares fez duas sugestões: aproveitar o nome Electra para o novo clube e utilizar uniforme semelhante ao da Juventus de Turim, sua paixão quando de um viagem à Itália.
Aceitas as sugestões de nome e uniforme branco com listras verticais pretas e calções branco , trataram de eleger a primeira diretoria. Foram escolhidos: Alfredo Guedes de Mello, presidente; Itamar Tavares, vicepresidente; Mário Figueiredo, primeiro secretário e Alfredo Chaves, tesoureiro.
Pouco antes de uma nova reunião, marcada para o dia 18 de setembro, a avó de Flávio Ramo, Francisca de Oliveira, mais conhecida como dona Chiquitota, perguntou a razão dos garotos se reunirem. Flávio respondeu: - É que nós estamos montando um clube, o Electro. Dona Chiquitota se indignou, não com o objetivo dos garotos, mas com o nome:
- Electra? Mas que falta de imaginação, menino! Aqui, neste bairro, o clube só pode se chamar Botafogo.
Posta em pauta a sugestão, foi aprovada por unanimidade. Os garotos homenageariam, assim, o bairro, batizado por João Pereira de Souza Botafogo, lugar tenente do governador Antônio Salema.
Logo a seguir, trataram de marcar o primeiro jogo. O adversário seria o Football and Athletic Club, dono de um campo na Tijuca, na Rua Campos Sales.
O resultado não foi dos melhores: perderam de 3 a 0. Mas trataram de não desanimar e botaram a culpa no uniforme: haviam jogado com camisa de malha branca e calções brancos. O clube foi representado nesse jogo por Flávio Ramos; Victor Faria e João Leal; Basílio Viana, Octávio Werneck e Adhemaro Delamare, Norman Hime, Itamar Tavares, Álvaro Soares, Ricardo Rego e Carlos Bittencourt.
Garotos que eram, logo aparecem as primeiras brigas, o que resulta em uma cisão originando outro clube, o Internacional. O motivo havia sido uma discussão entre o capitão do time, Victor Faria, e Flávio Ramos. Elege-se a nova diretoria e muda-se a sede do Largo dos Leões para a Rua Conde de !rajá. Mas logo a nova sede não serviria mais por falta de espaço para que se montasse uma arquibancada.
Tentaram o aluguel de um terreno na Rua Humaitá, só que este já estava alugado para um comerciante que possuía mais de 20 burros. A solução foi o retorno para a Rua Conde de Irajá, em 1906, na mesma época que o clube disputava sua primeira competição oficial.
Campeão desde 1907
1906, neste primeiro ano de disputa do Campeonato Carioca, o Botafogo amargou seu grande rival levando o título, o Fluminense. Conquistada a experiência, no ano seguinte o Fogão entra na disputa para ganhar. Formado por Alvaro, Raul e Octávio, Norman , Ataliba e Lulu Rocha, Rolando, Flávio Ramos, Canto, Gilbert e Emanoel Sodré, o time vence cinco partidas e perde apenas uma. Fica na liderança com o Fluminense e o campeonato seria decidido em uma partida extra, que o Flu não aceita. Injustamente, o título não é concedido ao Botafogo. A justiça só foi feita em 1991, quando o clube ganhou os direitos ao campeonato. Fato este que obrigou até a mudança no hino que antes era: "...campeão desde 1910...", e teve que ser reformado para "...campeão desde 1907...".
Nos dois anos seguintes, o clube consegue um bi-vice-campeonato. Apenas uma amostra do que viria em 1910.
Neste ano, o time entra com força total. Nas dez partidas do torneio, vence nove, e o que é melhor , todas de goleada. Os resultados menos expressivos conquistados foram dois 3 a 1, sobre o América e o Fluminense. Agora não tinha como negar, o Botafogo era, realmente, o campeão.
Campeão, mas sem campo. O dono do terreno onde o clube montava sua primeira arquibancada não renovou o contrato de aluguel. Cinco sócios- Luís Rebelo, Antônio Mota Júnior, Alfredo Couto, Eduardo Alexandre e Paulo Martins - não se conformam e encontram um novo terreno em uma área abandonada onde seria construída a Universidade do Brasil. Os o familiares influentes dos jogadores interferem junto ao Ministério da Justiça e conseguem permissão para que o clube alugasse o terreno por 300 mil-réis mensais. O Botafogo instala- se em General Severiano.
O novo local anima o time que conquista o campeonato de 1912. Só que existe uma divergência em torno desta questão: o Botafogo foi campeão pela Associação de Futebol do Rio de Janeiro (AFRJ), enquanto o Paissandu conquistou o título pela Liga Metropolitana de Sports Atléticos (LMSA). O que importa mesmo é que a campanha havia se repetido: dez jogos, nove vitórias e uma derrota.
Nos anos seguintes, as conquistas não se repetem. O clube passa um longo período sem ganhar torneios mas, apesar disso, consegue montar o Palácio de General Severiano, entre 1925 e 1928, e dá início à construção do estádio próprio.
Animado com a sede nova, o clube retoma que a trajetória de conquistas em 1930. Sob a presidência de Paulo Azeredo, o time disputa 20 jogos, ganha 15 e perde três. Retomar o caminho das vitórias é apenas modo de falar era, pois o que se viu nos anos seguintes foi a hegemonia do Glorioso no futebol carioca.
Tri, todos são; tetra, só o Botafogo
O clube vence quatro campeonatos seguidos, entre 1932 e 1935, alcançando o tetracampeonato, marca que os outros times cariocas tentam igualar até hoje.
Além disso, o time mostra ao País um elenco de craques inesquecíveis. Entre eles: Carvalho Leite, Patesko e Leônidas da Silva, o Diamante Negro.
Leônidas pode não ter jogado muito tempo com a camisa do Fogão, mas mostrou neste curto período, futebol suficiente para integrar a lista de seus maiores jogadores em todos os tempos
Participou da campanha de 1935, o ano do tetra.
Depois destes , o Botafogo ficou outros 14 anos sem títulos. Fora a falta de conquistas, uma das maiores injustiças desse período foi o fato de que nele apareceu Heleno de Freitas, o craque-galã que não teve a honra de ser campeão com a camisa alvinegra.
Nascido em São João Nepomuceno, no estado de Minas Gerais, em 1920. Heleno mudou-se aos 13 anos para o Rio e logo entrou de sócio no Botafogo. Quando já se destacava nos juvenis, este departamento foi extinto, o que obrigou-o a transferir-se para o Fluminense. De volta ao Glorioso, marcou época como um dos maiores craques e goleadores do futebol brasileiro em todos os tempos. Tinha um defeito grave: o espírito altamente rebelde e o temperamento explosivo, o que faziam-no arrumar brigas onde quer que fosse. O que não imaginavam é que por trás dessa irritação toda estava a sífilis cerebral, doença que levou-o à loucura e acabou matando-o, aos 39 anos, em um hospício mineiro.
Além disso, esses anos também marcaram a união entre o Botafogo Football Club e o Clube de Regatas Botafogo, em 1942. Até aí, apesar do nome, eram dois clubes independentes. Dessa associação, no dia 8 de dezembro, ocorrem duas mudanças: o time passa a jogar com calções negros e surge o novo escudo, a Estrela Solitária, já que antes era usado um monograma das letras B.F.C. entrelaçadas no peito dos jogadores.
O clube passa a ter, com isso, três datas para festejar: dia 1º de julho, fundação do Clube de Regatas e comemoração dos esportes aquáticos; dia 12 de agosto, fundação do Football Club e festa dos esportes terrestres; e dia 8 de dezembro, data da fusão. Mas o que interessava mesmo era o título, e ele só veio em 1948.
A semana da decisão contra o Vasco foi marcada pelo jogo de nervos. Diz-se até que o saudoso presidente Carlito Rocha obrigou o mascote do time, o cachorro Biriba, e seu dono a ficarem trancados na torre da sede do clube, no Mourisco, por alguns dias, com medo de seqüestro.
Valia tudo para ficar com a taça. O vestiário que seria usado pelo Vasco, em General Severiano, foi pintado no dia da decisão com cal virgem para irritar os olhos dos jogadores. A água foi cortada e os vasos sanitários, entupidos. Mas é só começar o jogo que os dirigentes percebem que tudo aquilo havia sido feito à toa.
Logo a dois minutos, Braguinha faz, de cabeça, o primeiro gol do Fogão. Antes de terminar o primeiro tempo, o mesmo Braguinha amplia para 2 a 0.
O "Expresso da Vitória" vascaíno vinha tomando um show do Botafogo de Osvaldo Baliza; Gérson dos Santos e Nílton Santos; Rubinho, Ávila e Juvenal; Paraguaio, Geninho, Pirillo, Otávio e Braguinha. E é só começar o segundo tempo para o Glorioso acabar de vez com as esperanças vascaínas. Logo aos cinco minutos, Otávio chuta de fora da área e faz 3 a 0. Ávila ainda faz um gol contra, descontando para o Vasco, mas o campeão já era o Botafogo.
Depois disso, o Botafogo retoma um tendência que é a de ficar por períodos sem conquistar títulos. Após levar a taça de 1948, outra, só nove anos depois, em 1957, época em que o Botafogo começou a montar uma das maiores equipes que o mundo já viu jogar.
Sob a presidência de Paulo Azeredo e o comando do técnico João Saldanha, o Fogão vence 16 de seus 22 jogos, perdendo apenas dois; marca 64 gols e sofre 21. Em campo, alguns craques insuperáveis: Nílton Santos, Didi, Quarentinha e Garrincha, entre outros. Nílton Santos já não era um novato. Havia sido revelado nove anos antes. Mesmo assim, era indispensável que fizesse parte deste esquadrão. Considerado o maior lateral-esquerdo da história do futebol brasileiro, foi também inovador ao subir ao ataque e tentar os gols em uma época na qual a única função do lateral era marcar o ponta adversário. Ficou conhecido como a Enciclopédia do Futebol.
Armador clássico, com ótima visão de jogo e toque de bola perfeito, Didi foi comprado, em 1956, junto ao Fluminense, por 1,85 milhão de cruzeiros, na maior transação do futebol brasileiro até então.
Valeu cada centavo. Além de inventor da "folha seca" - chute no qual a bola sobe bastante e cai de repente no gol - ficou famoso pelas suas desculpas: às vezes, quando não queria nada com o treino, colocava as mãos na cintura e permanecia estático no meio-campo. "Os fluidos não estão bons. Não adianta correr", tentava explicar.
Já Quarentinha foi o maior artilheiro da história do clube: marcou 302 gols em 423 jogos. Só isso já lhe valeria a citação, não fosse tão bom jogador. Só tinha um defeito, se é que isso pode ser considerado defeito: era extremamente frio, como o foi recentemente Sócrates, por exemplo. Pouco vibrava com os gols que fazia; o que não agradava a torcida. "Eu era pago para marcar gols e não fazia mais que minha obrigação", respondia.
Entre os craques que merecem uma análise especial , falamos também de Garrincha. Só que este merece um capítulo especial mais à frente.
Voltando à decisão de 1957, para tentar barrar o timaço do Fogão, chega à final o Fluminense, que leva a vantagem do empate. Com isso, o otimismo toma conta dos tricolores e o dirigente Aílton Machado manda avisar que é melhor o Botafogo esperar outra oportunidade. Os alvinegros só esperam para dar a resposta em campo. E que resposta! Quase 100 mil pessoas vão ao Maracanã, naquele dia 23 de dezembro. Logo aos três minutos, Paulo Valentim abre o placar: 1 a 0 p ara o Botafogo. Antes de terminar o primeiro tempo, mesmo com o jogo disputado, Paulo Valentim faz mais dois: um de joelho, após cruzamento de Garrincha, e o outro lindo, uma bicicleta no ângulo direito de Castilho.
A segunda etapa começa e o Fluminense desconta através de Escurinho. Mas a tarde era mesmo de Paulo Valentim que, antes de marcar o quarto gol, deixa o beque Pinheiro sentado com dois dribles. Garrincha amplia para 5 a 1 e, mesmo com um resultado inabalável, os jogadores, mordidos com a provocação tricolor, ainda querem mais.
Aos 23 minutos, Garrincha dribla Altair e Clóvis antes de cruzar para Paulo Valentim. O artilheiro da tarde, livre diante do goleiro, só empurra a bola no canto: Botafogo 6 a 1. O Maracanã explode e o segundo gol do Fluminense, marcado por Valdo, só serve para os alvinegros começarem a gozação com uma rima: "E 6 a 2, no pó-de-arroz".
Paulo Valentim, grande jogador, é o craque da decisão, e Garrincha, o craque inesquecível.
Só dá Fogão!!!
Como craque atrai craque, nos anos seguintes o Botafogo ainda contaria com a segurança de Manga no gol, a forte marcação de Rildo, o inovador ponta Zagalo que, além de cumprir as funções normais de sua posição, ainda recuava para ajudar na marcação, e o oportunismo e talento de Amarildo, o Possesso. Com tantos craques em um time só, o bicampeonato, conquistado em 1961 e 1962, foi só uma conseqüência natural.
Em 1961, o time disputa 25 jogos, vence 18 e perde apenas um; marca 54 gols e sofre 18. E no ano seguinte, o campeonato foi ganho com a marca do talento de Garrincha. Era o ano de outro bicampeonato: o mundial pela Seleção. Nela, a presença, entre os titulares, de cinco craques alvinegros: Nílton Santos, Didi, Zagalo e os destaques Garrincha e Amarildo. Na decisão do estadual, uma partida inesquecível contra o Flamengo.
O Fogão entra em campo como favorito, mas é o Flamengo que assusta primeiro através de Dida. O empate favorecia o Flamengo mas a pressão rubro-negra continuou até que Garrincha dispara pela direita e chuta cruzado, sem chances para o goleiro Fernando: Botafogo 1 a 0.
Ainda no primeiro tempo, Garrincha dribla Jordan, Gérson e cruza para Quarentinha completar de perna esquerda.
Dando números finais ao placar, aos dois minutos do segundo tempo, Amarildo toca para Zagalo que cruza para a área. Quarentinha pega de primeira, a bola bate no peito do goleiro Fernando e sobra para Garrincha completar: 3 a 0 e festa do Glorioso.
Ainda nessa década, o Fogão consegue mais um bi, só que com outros craques. Chegam, para ocupar os lugares dos craques inesquecíveis, Leônidas, para a zaga; Gérson, o Canhotinha de Ouro, para o meio-campo; além de Paulo César Caju e Jairzinho para o ataque.
Em 1967, o alvinegro leva a taça após vencer, de virada - 3 a 2 - o América na final. Já em 1968, conquista o estadual e a Taça Brasil, uma competição que já havia vencido em duas oportunidades, só que nenhuma sozinho: em 1964, ao dividir o título com o Santos, e em 1966, dividindo o título com Corinthians, Santos e Vasco; as duas vezes por não haver datas para a disputa das partidas finais. Só que, a partir daí, viria o jejum de 21 anos sem títulos.
O Botafogo ainda consegue dar algumas alegrias à torcida: derrota, em 1972, o Flamengo por 6 a 0, no dia do aniversário do rival; conquista alguns títulos de menor expressão como o Triangular de Caracas, em 1970; os Internacionais de Genebra e Berna, em 1984 e 1985; o Pentagonal da Costa Rica, em 1986; o Palma de Mallorca, em 1988, e outros. Mas, título de maior expressão, só em 1989.
O título, 21 anos depois
- Pouco antes do time entrar em campo, naquele histórico dia 21 de junho, o inesquecível Nílton Santos, nervoso, dentro do vestiário alvinegro, faz a premonição: "Rezei bastante para o Garrincha. Tenho certeza que ele vai inspirar o Maurício (que também usava a camisa 7) e ajudá-lo a trazer o título de volta".
Dentro de campo, o time faz de tudo para tornar reais as palavras de Nilton Santos, mas uma coisa preocupava: o Botafogo não ganhava um clássico carioca há três anos. Do outro lado, também não estava um time qualquer. Era o "Flamengo de Zico", o grande campeão da década de 80.
Para barrar o camisa 10 rubro-negro, Valdir Espinosa ordena que Luisinho não descole do craque. Mesmo assim, além de Zico, o Flamengo também tinha Bebeto que, no começo da partida, em uma cabeçada no ângulo esquerdo, obriga Ricardo Cruz a fazer uma defesa milagrosa. Depois disso, o Botafogo percebe que esse era o dia.
Além da previsão de Nilton Santos, uma série de coincidências ocorrem para tornar real o sonho rubro-negro: no dia 21, com o placar eletrônico do Maracanã marcando 21º C, Mazolinha prepara-se para fazer o 21º cruzamento do jogo aos 12 minutos (contrário de 21) do segundo tempo. A bola está mais para o lateral Leonardo mas, em um lance malicioso, Maurício desloca-o com um leve toque de braço e emenda de primeira. No primeiro chute alvinegro ao gol, a bola estufa as redes.
Os torcedores não conseguem nem aguardar o final da partida para soltar o grito travado há 21 anos na garganta. Aos 43 minutos, começa a festa: "É campeão". Basta o juiz Válter Senra apitar o final da partida para vários jogadores botafoguenses se atirarem de joelhos no gramado. Parecia um sonho: além do campeonato, a conquista invicta, em cima do grande rival. O time: Ricardo Cruz; Josimar, Wilson Gottardo, Mauro Galvão e Marquinhos ; Carlos Alberto Santos , Luisinho e Vitor (Mazolinha); Maurício , Gustavo (Jefferson) e o artilheiro Paulinho Criciúma.
No ano seguinte, além do bi, o Botafogo conseguiria outro título invicto não fosse um gol de Pião, na derrota por 1 a 0 para o América de Três Rios. Mesmo assim, a história se repete na final: derrota o Vasco, como no ano anterior, pelo placar de 1 a 0, gol de Carlos Alberto Dias. No time, algumas mudanças: Joel Martins no comando técnico, em lugar de Valdir Espinosa; Paulo Roberto e Renato Martins nas laterais; Carlos Alberto Santos e Djair no meio-campo; e Donizetti, Valdeir e Carlos Alberto Dias no ataque.
Depois disso, o time ainda consegue chegar à final do Campeonato Brasileiro de 1992, mas perde o título para o Flamengo.
Outro problema vem com a saída do presidente Emil Pinheiro que leva a maior parte dos jogadores do elenco para o América. A diretoria aperta o cinto e faz algumas contratações de menor expressão.
Mesmo assim, em 1993, o clube vence a Copa Conmebol, fato que nem o timaço das décadas de 50 e 60 conseguiu. E quem realizou a façanha foi uma equipe recheada de desconhecidos, que vinha realizando uma fraca campanha no Campeonato Brasileiro mas, "o que lhes faltava em talento, sobrava em vergonha na cara", segundo palavras do treinador alvinegro Carlos Alberto Torres.
Até chegar à decisão, o Botafogo passou por duras provas: venceu, na primeira fase o Bragantino; passou pelo Caracas da Venezuela a seguir; e, nas semifinais, derrotou o Atlético, até chegar à final contra o Peñarol.
Na partida final, depois de empatar em 1 a 1 no Uruguai, o Fogão penou até o último minuto para ficar com a taça. A galera já começava a fazer a festa quando, aos 45 minutos do segundo tempo, o ponta Otero faz o gol de empate: 2 a 2. Agora teria que ser nos pênaltis.
Enquanto os jogadores faziam uma corrente de pensamento positivo no meio-campo, o jovem goleiro Wililam partiu seguro em direção ao gol. Nas suas mãos pararam os chutes de Ferreira, Gutierrez e Dos Santos, levando a inédita taça internacional para General Severiano. Um time sem muitos destaques, mas com muita sede de vitória.
- Em 1994, chega à presidência do clube Carlos Augusto Montenegro que, mesmo as sumindo o cargo com pedidos de paciência à torcida, traz os reforços Roberto Cavalo, Wilson Gottardo e o artilheiro Túlio.
Goleador nato, Túlio Humberto Pereira da Costa, ou Túlio Maravilha, como a torcida prefere, chegou ao clube após passagens pelo Goiás e Sion da Suíça. Promessa de gols. o craque não fez por menos: de bola parada, de cabeça, com a perna direita, com a esquerda, ele os marca de qualquer maneira. Por pouco o craque não se transfere para o Japão no final do ano; mas ele tinha que ficar, e ficou.
Com a garantia da permanência de Túlio, mais as contratações de Adriano e Guga, a nova diretoria fecha o ano com chave de ouro. Se chegou em 1994 pedindo paciência, Montenegro já entra em 1995 como um dos melhores presidentes da história do Glorioso. Agilizou o sonho antigo de retornar à sede de General Severiano e ainda conseguiu benefícios com isso: uma parceria com uma empresa que construiu o Rio Off Price Shopping na área subterrânea de General Severiano que, em troca, cede parte dos lucros ao clube, além de agilizar a construção do clube no local que contará com quadras poli esportivas, piscinas, ginásio para 1.700 pessoas, alojamento e campo de treino para os jogadores profissionais. Além disso, foi fechado um contrato de patrocínio com a Pepsi e a primeira promessa do novo parceiro do clube já foi anunciada: a vinda de Bebeto para disputar o Brasileiro pelo Fogão.
Quando presidente da República, Juscelino Kubistschek prometeu que o País cresceria 50 anos em cinco; a nova diretoria botafoguense promete que o clube crescerá 60 anos em seis. E é com o amor que esses dirigentes têm ao clube que o Glorioso chegará novamente lá, ao topo do "Planeta Bola".
Acervo particular Angelo Antonio Seraphini
Fonte: Série futebol nº 120
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