
Exibindo sua faceta multiesportiva, o Botafogo Football Club foi ativo participante em torneios de esguima. A srta. Maria Luiza Henry conquistou o campeonato de florete feminino em junho de 1940.
Acervo particular Angelo Antonio Seraphini
Fonte: Livro Botafogo O Glorioso
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Haroldo, um encestador notavel inicialmente, depois que deixou o Flamengo, trocou o basket pelo samba e, alcançando succeso no sector sambista, ficou alheio ao movimento do basket durante largo tempo. No anno passado, porem, reappareceu nas quadras, defendendo um team do Botafogo o team Luis Aranha), num torneio extra. E conseguiu mais um titulo de campeão para a sua collecção. Concluído o "extra", afastou-se novamente, e não acompanhou os "filhos pródigos" na volta ao Botafogo.

Pila, o outro "az" do passado que acaba de voltar ao seu antigo club, foi o que defendeu mais de um club durante o seu período de affastamento das hostes rubro-negras. Primeiramente no Carioca, por onde disputou duas temporadas. No alvi-rubro da Gavea Pilla produziu boas performances, que o credenciaram ao interesse de outros clube. E assim em 39, surgiu no Botafogo F. C, onde, ao lado de Haroldo, foi campeão pelo team Luiz Aranha.
Fonte: Jornal O Globo Sportivo nº 88 ano III de 1940
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Fonte: Jornal port Illustrado nº 111 de 23 de maio de 1940-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-

A iniciativa de SPORT ILLUSTRADO, organizando um sensacional Torneio Feminino de Volley-ball, teve a virtude de dar um grande impulso a esse interessante sport, e, o que é essencial, de demonstrar a possibilidade de sua organização. E isso é tanto verdade que, semanas após o encerramento da competição diante, com numerosos clubs filiados, teve inicio sua actividade official, organizando-se o anno passado o 1º Torneio Initium e a seguir, o seu Campeonato, do qual foi o Botafogo F. C. o vencedor. Agora, este anno, a Liga de Volleyball do Rio de Janeiro iniciou sua temporada com a disputa do seu 2º Torneio Initium, ao qual concorreram os mais aguerridos quadros, destacando-se o Botafogo F. C., o America, o Tijuca, o Vasco da Gama, o C. R. do Flamengo, o Meyer, o Irapurú e o Riachuelo, cujos componentes estampamos nestas duas paginas. Mais uma vez coube ao Botafogo as honras de vencedor, o que representa um final justo, pois o quadro alvi-negro apresentou-se como dos melhores em todas as partidas da competição realizada na bella quadra tijucana. A victoria do volley-ball nesta capital é para este órgão uma demonstração definitiva do alto mérito de sua iniciativa, logo depois do seu apparecimento em nosso ambiente sportivo. O brilhantismo do nosso torneio feminino repercutiu de tal modo em todo o Brasil que em pouco alcançava esse sport, até então disperso e mal diffundido, o mais retumbante successo e interesse invulgar entre os sportistas de ambos os sexos. A abertura da temporada de 1940 é bem a demonstração plena da nossa afirmativa.
Fonte: Jornal Sport Illustrado nº 110 de 16 de maio de 1940
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BOTAFOGO 1 X 1 MADUREIRA

Quando uma rodada do campeonato encerra duas partidas de importância para o interesse popular SPORT ILLUSTRADO se compromette em trazer ao conhecimento de seus leitores os detalhes de ambas.
Assim fizemos ao analysarmos recentemente os combates Flamengo x São Christovam, Vasco x Fluminense, os quaes encerraram as attracções da quarta rodada do certamen de 1940. Agora, si a luta Fluminense x America foi o cartaz da ultima rodada, Botafogo x Madureira também jogaram um prelio de expressão, principalmente olhando-se com especial attenção o periodo de enthusiasmo e reacção que atravessa o “onze" do tricôlor suburbano. E assim, si o publico que compareceu ao campo do São Christovam, para acompanhar os minimos lances do combate entre botafoguenses e madureirenses — foi pequeno — relativamente, o referido match correspondeu a importancia de que revestimos o mesmo. Os "fans" da pelota elegeram o Botafogo como o favorito, olhando preliminarmente a classe do seu conjunto e depois se reportando ás suas exhibições, julgavam-se autorizados a não considerar o Madureira capaz de uma surpreza.
Entretanto, nós já analysamos as possibilidades dos suburbanos sob um aspecto differente. Estimulados por uma ampla victoria sobre o Bomsuccesso e encontrando uma cancha de pequenas dimensões para preliar, o Madureira poderia se tornar um adversário á altura do Botafogo, bastaria como condição para isso a energia e o enthusiamo dos seus defensores. E os nossos prognósticos se confirmaram plenamente.
A luta que se travou em Figueira de Mello, foi perfeitamente equilibrada, notando-se ligeira vantagem ainda a favor do Madureira, que além de exercer pressão maior sobre o reducto final botafoguense, perdeu excellentes opportunidades para decidir o match a seu favor.
Analysando a partida, cumpre accentuar que a mesma, só assumiu caracteristicas interessantes e attrahentes no segundo periodo. A primeira parte, o foot-ball jogado por ambas as equipes foi mediocre. Trocaram-se tiros longos de um campo a outro, havendo mais a resaltar jogadas pessoaes deste ou daquelle player em actividade.
Notou-se nesse primeiro periodo certa egualdade em tudo, inclusive na desarticulação das equipes; com especialidade as duas linhas de frente que careceram de aggressividade e harmonia. O Botafogo, então, chegou a decepcionar aos seus adeptos, emquanto o Madureira dava uma melhor impressão, si bem que a missão dos seus dois meias categorizados não vinha sendo cumprida dentro das possibilidades reconhecidas. Assim, quando o chronometrista anunciou o final da primeira phase o placard intacto reflectia uma verdade. Os dois quadros não tiveram capacidade para marcar e o zero para cada um era uma evidencia de factos indiscutíveis. As duas defezas em acção não encontraram nenhuma difficuldade para revidar tentativas lançadas pelas duas vanguardas mediocremente constituídas.
Para o segundo tempo de luta houve como que a applicação do óleo camphorado no vestiário. As turmas voltaram mais dispostas á luta, e a partida logo de inicio passou a despertar maior interesse por parte do publico. O Botafogo num golpe de chance abriu o score por intermédio de Patesko. O extrema alvi-negro centrou rasteiro, á pelota cruzou a frente da meta adversaria e acabou penetrando nas redes depois de um lamentável descuido de Alfredo.
O tento botafoguense além de movimentar o placard redobrou o esforço do Madureira, que passou então a mostrar-se capaz de annullar a superioridade inesperada do seu adversário. E assim, 17 minutos depois de Izaias egualava o score, num lance magnífico» onde o
futuroso center-forward suburbano deixara evidenciadas as suas qualidades de commandante malicioso e arrojado. E dahi, até o final, notou-se que a partida se apresentara mais favorável aos suburbanos. Salvo si um golpe de fatalidade surgisse inesperadamente para trahir a equipe de Alcides. Este golpe se apresentou, todavia não teve effeito no placard. Agindo com rigor, o juiz puniu uma falta na área contra o Madureira. Canalli, eximio nos penalties não acertou com as redes, como se o destino tivesse contribuido para reparar uma injustiça do arbitro.
E com uma série de opportunidades perdidas pelo Madureira o prelio terminou, mostrando que a confiança absoluta do Botafogo em conseguir a victoria foi castigada, através uma exibicão convincente do seu perigoso adversário.
O Botafogo não se mostrou o mesmo adversário voluntarioso, coheso e enthusiasta que se deixou abater com injustiça pelo Flamengo. Alguns defensores alvinegros chegaram a agir com displicência e outros estiveram negativos nos seus postos. Aymoré, Graham Bell e Canalli, foram os melhores da defeza e. . . no ataque ninguém se salvou. O proprio Patesko que ainda se destacou, mostrou-se moroso e desinteressado. Heleno desmereceu os conceitos que lhe foram anteriormente feitos e Paschoal, C. Leite não appareceram. Em contraste, a vanguarda do Madureira agiu bem. Apenas Jair, muito cheio de si não teve um trabalho de cooperação conforme se esperava. Lelé, ao contrario, esteve preciso e operoso. Isaias, já salientamos que é um player de futuro, capaz de surprezas, falta-lhe comtudo a experiencia necessária para intervir com êxito nos momentos em que se torna necessária a malicia. Jorginho fraco e Valentim, fora de sua posição mas perigoso e cavador. A defeza dos suburbanos surprehendeu pela conducta enthusiasta. O veterano zagueiro Tuica destacou-se, seguido de Alfredo que foi a infelicidade no lance que deu origem ao primeiro goal do Botafogo, esteve excellente, praticando uma série de bellas e seguras defezas. Os demais elementos da rectaguarda madureirense conduziram-se com acerto e sem desmerecer o trabalho dos seus companheiros.
No ataque os botafoguenses, mas Jahú II devolve de cabeça afastando o perigo.
O arbitro Guilherme Gomes não foi feliz. Commetteu muitos erros e alguns imperdoáveis. Amarrou a linha do Madureira nos ultimos minutos da peleja, quando a mesma exerceu forte pressão ao ultimo reducto botafoguense. Deixou passar um penalty flagrante de Graham Bell para marcar logo a seguir uma falta egual contra o Madureira.
O ultimo lance do jogo evidenciou a maior falta do arbitro ao assignalar um offsid inexistente de Valentim.
Em resumo, Guilherme Gomes cumpriu a sua peor actuação na presente temporada.
da.
Os quadros actuaram assim constituidos:
Botafogo — Aymoré; Graham Bell e Bibi; Zezé Procopio, Zezé Moreira e Canalli; Paschoal (Heleno e Melado), C. Leite (Heleno e Paschoal), Heleno (Paschoal), Nelson e Patesko.
Madureira — Alfredo; Apio e Tuica; Octacilio, Jair II e Gringo (Alcides); Jorge (Dentinho), Lelé, Isais, Jair I e Valentim.
Fonte: Jornal Sport Illustrado nº 112 de 30 de maio de 1940
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A produção do esquadrão alvi-negro em 1940 não tem sido boa. Tem sete pontos perdidos e está em terceiro logar na tabela, a tres pontos do segundo e quatro do leader. Começou bem, vencendo o São Christovão por 2x0.
Mas no seu segundo compromisso foi derrotado, numa partida accidentada, pelo Flamengo, por 3x2.. Descansou um domingo e outro resultado desfavorável, pois empatou com o Madurara por 1x1. O Bonsuccesso, porém, tombou ante os alvinegros por 2x0. Com o Fluminense chegou a estar vencendo por 3x0 e teve que se contentar com o empate. Depois o Vasco foi derrotado. Os cruzmaltinos venceram por 3x0. Com o America conseguiram um placard honroso de 1x1, encerrando turno com sete pontos perdidos. A sua producção não passa de 57%, , bem inferior á de 1939.
Fonte: Jornal O Globo nº 99 de 13 de julho de 1940
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BOTAFOGO 4 X 3 VASCO DA GAMA
O foot-ball da actualidade tem um sentido differente. Nos tempos de saudosa memoria, os clássicos se decidiam após uma luta sem treguas onde o equilibrio de forças prendia a attenção do publico desde o primeiro minuto até ao apito final do juiz. Um dos contendores, quando conseguia minima vantagem no placard, sabia conserval-a, destruindo o esforço e a reacção do adversario com dupla capacidade de resistência. Não se assistia a "viradas" sensacionaes todos os domingos. Quando um club perdendo, por um ou dois goals, acabava vencedor, o acontecimento era -commentado tal como um milagre. Falava-se nisso durante muito tempo. Vencer pela reacção era proeza rara, principalmente entre qua- dros categorizados e poderosos. Agora, com o profissionalismo em franca exploração, o panorama do foot-ball transformou-se. O milagre da reacção tornou-se uma praxe. Este anno, então, quando apenas uma etapa do campeonato foi transposta pelos clubs, já se assistiu a uma serie de victorias surprehendentes. O Botafogo, por exemplo, teria sido a maior victima dessas transformações si por ventura o destino não lhe tivesse também reservado uma tarde de gala. Contra o Flamengo e contra o Fluminense o grêmio alvinegro experimentou a amargura de um resultado adverso quando a victoria lhe parecia cousa certa.

O próprio Flamengo soffreu esta decepçao contra o Vasco e o Vasco também deixou-se vencer pelo "glorioso" em recente peleja, quando tudo parecia crer que a sua victoria seria espectacular e convincente. Na realidade não deixou de constituir uma grande surpreza a queda dos commandados de Zarzur depois daquelles trinta minutos de exhibição primorosa, onde tudo se completara mathematicamente inclusive os tentos que nasciam como conseqüência lógica de uma superioridade marcante. Tinha-se a impressão de que o Vasco da Gama occupara todo o terreno de São Januario, no qual os jogadores aivi-negros eram apenas obstaculos de fácil transposição. O placard mostrara a vantagem de 3x0 para os vascainos, producto de desconcertantes jogadas. Além de entenderem-se admiravelmente entre si, os camisas negras capricharam os passes e as intervenções de forma a dar uma impressão agradável ao publico que não se cansou de applaudir aquella movimentação perfeita e humilhante para o adversário que parecia ausente. . . Entretento, essa exhibição de technica apurada entre os vascainos terminou quando o chronometro iniciou o 31º minuto de luta. Aos poucos evidenciando uma confiança demasiada nas suas possibilidades, as energias dos cruzmaltinos foram arrefecendo, as suas arremetidas fulminantes foram diminuindo e a sua defesa começara a apresentar falhas.Chegou-se até a pensar que o Vasco procurara castigar o adversario, descansando ligeiramente para voltar a carga no segundo tempo com maior disposição. Todavia, com dez minutos que faltaram para terminar a primeira parte do jogo, a peleja apresentara um panorama differente. O Botafogo não havia recebido a humilhação dos 3x0, sem um protesto no momento opportuno. Dois goals de sopetão foram marcados por Pâschoal e a sorte do Vasco passou a correr perigo. Quando o chronometrista ordenou o final da primeira phase já a aprehensão dominava as hostes vascainas e a esperança illuminava os defensores da camiseta alvi-negra. E tanto verdadeiro foi essa impressão qUe a phase final da luta mercê de uma serie de factores que apontaremos adiante, o Botafogo conseguia mudar inteiramente o panorama geral da contenda, investindo de forma decisiva até conseguir se impor pela differença de um tento. E a observação melhor que se poderia fazer sobre a partida resumese na expressão de desconsolo fixada na physionomia dos jogadores vascaínos ao deixarem o gramado, em contraste com a alegria communicativa dos players victoriosos do Botafogo. A historia do prelio principal, como dissemos, começou com aquella sahida fuiminante do Vasco, sahida que permittiu em menos de três minutos a conquista de dois goals.
O primeiro, de autoria de Alfredo, nasceu de um trabalho brilhante de Gonzalez, que depois de varias fintas entregou a pelota ao companheiro para marcar. Pouco depois, Villadoniga augmentava e o Botafogo não se havia refeito da surpreza que lhe causara a "blitzkrieg" vascaina, quando, aos 11 minutos, novamente Villadoniga, de fora da área, atirou, passando a bola entre as mãos de Aymoré, que ao saltar chocara-se com a trave, facilitando deste modo a conquista do terceiro tento. Sombrias eram então as perspectivas do match para os alvi-negros e cremos não exaggerar salientando que alguns elementos da defensiva botafoguense resolveram relembrar velhos tempos e appellar para o jogo aberto, como único recurso para atemorizar um ataque que se mostrava tão aggressivo e perigoso. A tactica, embora capaz de provocar animosidades e não poucas restricções, deu resultado. O Vasco, com um placard fácil, adoptou uma politica commoda e em logar de revidar corpo a corpo as jogadas bruscas, preferiu contentar-se com a vantagem territorial sem empregar-se muito a fundo para augmentar o score.

E, nem mesmo quando viu cahidos em campo, ao mesmo tempo, Gonzalez e Dacunto, em conseqüência de "fouls", essa serenidade dos vascainos teve solução de continuidade. Desde o inicio do match, apesar do dominio e da vantagem numérica, viu-se que a linha media vascaina, indiscutivelmente o ponto alto do quadro, não estava nos seus grandes dias. Apenas Zarzur produzia o normal. Dacunto sentia a contusão que quasi o afastou do match e Figliola era nitidamente impotente para marcar Patesko, já que suas condições physicas não eram boas e, além do mais, o ponteiro botafoguense estava produzindo uma das suas melhores actuações da temporada. O resultado, é que, em cada incursão de Patesko, embora um pouco rara, a meta de Chiquinho perigava. E assim foi até que, numa dessas escapadas, o ponta esquerda entregou a Paschoal. atrazado, tendo este tirado o zero do marcador com um pelotaco indefensável. Estavamos então a 34 minutos de jogo e meio minuto antes de terminar a phase, de novo o reducto vascaino cahiu, já ahi, em conseqüência de uma dupla falha de Oswaldo e Chiquinho, que ficaram esperando um pelo outro, emquanto Pâschoal, que foi o artilheiro absoluto da peleja, collocava calmamente o couro nas redes, com certeira cabeçada. O marcador somente voltou a funccionar aos 14 minutos do segundo tempo, quando Pâschoal, apesar da troca de Chiquinho por Nascimento, conseguiu continuar o seu rosário de tentos e manter a superioridade aivi-negra; empatou a peleja, emendando de dentro da área um tiro de canto de Tadique. 
O ataque nictheroyense encerrou a sua brilhante serie de goal aos 32 minutos de jogo, completando, ainda de cabeça, uma jogada da ala direita, na qual Tadique accionou bem o couro em direcção á área. O quadro do Vasco confiou demais na victoria. Depois de vencer o Flamengo e o São Christovam, passando para o segundo posto do campeonato, os jogadores vascainos julgaram-se quasi os campeões. . . Tornou-se até uma lenda que a linha media era a melhor do mundo e consequentemente invulnerável para qualquer adversario, quanto mais frente ao Botafogo. . . Assim, o Vasco pisou o gramado certo de vencer e esta certeza augmentou quando o placard já lhe era favorável por 3x0. Ahi houve excesso de exhibicionismo e o desejo incontido de humilhar o adversario. O castigo entretanto não tardou e o Botafogo acabou por vencer uma partida bellissima graças á energia e á disposição dos seus defensores. Um team que consegue cumprir uma façanha como esta do Botafogo deve receber um elogio destacado, todavia, seria injustiça apontar este ou aquelle jogador como melhor do que os demais companheiros. Aymore falhou, por exemplo, no lance do terceiro goal vascaino, mas em compensação esteve magnifico em outras situações de perigo por que passou o seu arco. Graham Bell e Araraquara, mais ardorosos do que technicos, fizeram uma partida sem comprometter, emquanto que a linha media desorientada no inicio ente a impetuosidade dos vascainos acabou por firmar-se e cooperar de maneira elogiavel no trabalho de construcção do placard. Na dianteira, Paschoal foi a machina de produzir goals, emquanto os extremas Patesko e Tadique foram os verdadeiros artifices do triumpho botafoguense, principalmente quando sentiram fracassar os médios do Vasco. Dos meias é curioso resaltar que Zarcy improvisado substituto de Carvalho Leite, foi o melhor, não só pela sua mobilidade, coragem e excellente serviço de marcação sobre Gonzalez. Pode-se dizer em resumo que a victoria do Botafogo valeu pelo esforço dos seus homens, não houve estratégia, nem tão pouco coube ao technico de fora collaborar para a marcha do placard. Foram exclusivamente os jogadores alvi-negros que foram buscar aquelles quatro tentos definitivos e arrazadores para o Vasco da Gama. Como dissemos mais acima, o Vasco durante trinta minutos tomou conta do campo e abafou a bola. O seu quadro exhibiu-se em conjunto de forma a honrar a sua condição de vice-"leader". Não houve falhas neste periodo de absoluta superioridade. Entretanto, depois do primeiro tento imprevisto de Paschoal decahiu a producção da linha media vascaina, falharam Dacunto e Figliola, Gonzalez recebeu violenta entrada de Zezé Moreira, e o Botafogo se o veterano Nascimento, que aqui prevaleceu de taes circumstancias para reagir com valentia até ao final. Apenas Gonzalez e Villadoniga merecém elogios totaes, emquanto Zarzur esforçou-se para amparar os seus companheiros de ala, cuja condição physica não permittia a ambos proseguir no mesmo train de jogo. A zaga, fraca; Nascimento muito superior a Chiquinho e os extremas apenas activos. Quando o placard esboçou o empate de 3x3 o Vasco naufragou completamente, permittindo por fim que o Botafogo marcasse o tento da victoria sensacional e surprehendente. A parte disciplinar do match foi bastante accidentada e, é fora de duvida que Fioravante D'Angelo teve uma partida difficilima para arbitrar. A principio, foi o jogo bruto que mereceu do popular arbitro, apenas a repressão corriqueira da marcação do "foul".Fioravante apreciara, naturalmente, as criticas severas soffridas por Mario Vianna, uma semana antes, quando bateu o "record" de expulsões no prelio Vasco x São Christovam e, por isso, resolveu seguir outro caminho, deixando em campo os autores dos "fouls" emquanto tudo não descambasse para o terreno da aggressão. Todavia, apesar desse critério, o arbitro não poude fugir á applicação de methodos mais rigorosos, quando a partida ameaçava mesmo descambar para um terreno mais perigoso ainda. Orlando, por ter desrespeitado o juiz, na occasiao de um corner, foi expulso da cancha e, pouco depois, Zezé Moreira fazia violento "foul" em Alfredo I, tendo este revidado com um socco. Ambos ficaram no solo, mas o juiz expulsou-os apesar dos protestos de innocencia, de parte a parte. Não deixou, porém, de causar certa extranheza o gesto de ambos os jogadores vascainos expulsos, voltando a campo pouco depois, não se sabe se por terem comprehendido mal a ordem de Fioravante D'Angelo ou se para estabelecer confusão, de caso pensado. . . É esse um caso que o Departamento Technico da Liga deve olhar com attenção, pois ambos os "players" chegaram a intervir em jogadas, depois de expulsos, e isso poderia trazer complicações cações fáceis de imaginar. Todavia, mesmo sem ter produzido uma arbitragem perfeita, já que teve falhas, Fioravante foi imparcial e o placard de 4x3 a favor do Botafogo não se deve de modo algum á sua influencia. Bello triumpho na presente temporada, virada por 4x3. Vemos aqui o seu derrotando o Vasco depois de esquadrão. Os quadros preliaram obedecendo á seguinte constituição: BOTAFOGO — Aymoré; Graham Bell e Araraquara; Zezé Procopio, Zezé Moreira (expulso aos 35 minutes do segundo tempo) e Canalli; Tadique, Carvalho Leite (Zarcy aos 8 minutos do 2º tempo), Paschoal, César e Patesko. VASCO — Chiquinho (Nascimento no 2º tempo); Oswaldo (Jahú aos 18 minutos do 2º tempo) e Fiorindo; Figliola, Zarzur e Dacunto; Lindo, Alfredo I (expulso aos 35 minutos do 2º tempo), Villadoniga, Gonzalez e Orlando (expulso aos 25 minutos do 2º tempo).
Fonte: Jornal Sport Illustrado nº 121 de 01 de agosto de 1940
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O Botafogo F.C. inicia com brilho os festejos da sua data magna
As glorias e o orgulho de bellos feitos alvi-negros podem ser exaltados agora pela familia botafoguense, ao reviver os seus 36 annos de luta pelo engrandecimento dos sports brasileiros. É que o querido club da rua General Severiano festeja a data magna da sua fundação. Nasceu da vontade férrea de um luzido grupo de sportistas e com coragem inaudita os seus fundadores beneméritos lançaram-se em trabalhos hercúleos até sentirem corporificada a idéa que os movia com ardor e enthusiasmo.
E em pouco tornara-se o Botafogo um baluarte dos nossos sports e os seus feitos, através de grandes e meritorias conquistas em terreno sportivo, fixavam seu rumo de gigante. Palmilhou a estrada que conduz as organizações de elite sob as mais intensas sympathias dos sportistas cariocas e dos clubs coirmãos. Elevou-se seu quadro social, cresceram suas instalações firmou-se como aggremiação de escól.
Em torno de sua bandeira surgiram homens continuadores dos homens do passado e, assim, cada anno vencido era mais uma gloriosa página no livro da sua existência, onde as figuras alvi-negras, com a tinta da fé, passaram a registrar as realizações do passado, a grandeza do presente e as glórias que sonham para o seu porvir. As páginas que ilustram este registro representam a abertura das festividades da data de fundação do “Glorioso” , quando a juventude alvi-negra de ambos os sexos, em competições sociaes-sportivas de vários matizes, ofereceu aos presentes sua praça sportiva, no stadium mais bonito do Brasil, um domingo cheio de alegria e encantamento.
Fonte: Jornal Sport Illustrado nº 123 de 15 de agosto de 1940
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Palavras do presidente do Botafogo F.C. quando da comemoração dos 36 anos de fundação
O Sport é num sentido geral, mais acção que palavras. Comporta pela sua própria essência, consequentemente, apenas feitos e realizações, sejam elles modestos ou grandiosos. As orações, os discursos, embora contendo em seus enunciados, conceitos de mérito e de valia, devem, a rigor, dispor do menos publicidade. Mas como qualquer ponto de vista se tornaria falso e temerário se fixado num sentido absoluto radical, immutavel o definitivo, não é do extranhar que surja, de quando em quando, no próprio ambiente sportivo, uma figura de escol e que com o encantamento da sua palavra rica e em rendilhados de phrases cheias das rutilancias dos diademas, desperte, mesmo na imprensa sportiva, a fascinação que imperativamente se tem de sentir por uma jóia custosa posta sob os próprios olhos.
Assim foi com a oração do dr. João Lyra Filho, presidente do Botafogo F. C. quando do encerramento das brilhantes festas commemorativas da data magna do club alvi-negro.
Consequentemente nada mais justificável e opportuno, pois, que quebremos a praxe, estampando para os leitores de todo o Brasil, na integra, o discurso então proferido pelo dr. Lyra Filho. Eil-o:
"Para falar do Botafogo, a gente tem, por força, que tirar o chapéu, e não somente de tirar o chapéu: — tem que abrir o coração. Tudo é tão querido, alli dentro, fala tão dentro da gente, que não ha quem não se commova na recordação da sua vida já vivida.
O que primeiro nos chama ao seu convívio é a lembrança de que o Botafogo conheceu, no seu berço volante, o infortúnio da pobreza, a angustia do desarrimo material, fazendo-se, depois, com o esforço próprio, o que é hoje, sem tirar de ninguém, sem trair ninguém, sem se sobrepor á vez de qualquer outro.
Se alguém ainda desconhecer o Botafogo e tiver capacidade para bemquerel-o, por favor não contemple, primeiro, a sua projecção actual; — vá ler a sua historia, familiarizando-se com as lutas moraes e materiaes que elle supportou no seu destino. E como as vem supportando? Com singular varonilidade.
Não existe ninguém aqui, no Rio de Janeiro ou no Brasil inteiro, que conheça a historia do meu Club e não o respeite,e não o venere, e não o traga no coração.
Poderá acontecer que existam camisas mais bonitas ao olhar dos outros. Mas, vamos confessar a verdade: — que ciúme do Botafogo!
Todos os famosos jogadores de foot-ball da cidade desfilam na parada feita para o recreio dos fans mas duvido que não se acotovele junto á turma do meu Club o maior numero dos que examinam os campeões da cabeça aos pés, olhando as shooteiras, reparando a camisa, contemplando o olhar.
Os jogadores do Botafogo teem todas as qualidades e todos os defeitos da nossa gente brasileira. Não é atoa que constituem o mais selecto quadro de representação, nitidamente brasileira, dentro de um Club de foot-ball. Não é verdade?
Pode ser que algum desses jogadores se vá um dia do nosso meio, por isso ou por aquillo. Pode ser que se vá; mas volta, volta com certeza. Aquillo que Nabuco chamou, no estrangeiro, a acústica da Pátria, a saudade da distancia, todos sentem, quando o destino, por perversidade, faz com que um ou outro (e são tão raros !) se desgarre do bloco.
O Botafogo é o único Club que promove jogadores por antiguidade! A gente gosta do que é nosso. Até a desordem, dentro de casa, quando se arruma a nossa historia, até essa desordem tem ordem. Quem ordena é o amor de ficar, é o bem de demorar alli, é o prazer de não deixar aquelles recantos, alguns tão sizudos, tão carregados, tão solemnes. Outros tão cheios de pequeninos nadas, que se resolvem na conversa molle, no aconchego demorado das conversas fiadas, no vime das cadeiras soltas ao amplo dos jardins, nas estufas vestidas de branco dos salões armados para as visitas.
Alli, em todos os ocios, a gente espairece, perdidamente, o orgulho de ser de casa, de ser dono daquillo tudo, vendo e sentindo as mesmas cousas caras, querendo aos mesmos amigos queridos, realizando o mesmo destino, armado pelo ideal de toda a vida.
E chega um e vem outro e não demora um terceiro e se espera o quarto e se recebe o quinto a as horas vão passando e a roda vae crescendo e a gente vae se juntando, para dizer o Botafogo, para viver o Botafogo, para fazer o Botafogo ainda maior e mais Botafogo, Botafogo, alvinegro, glorioso, vá lá que seja Botafogo campeão de 1910.
Os outros não sabem que esse titulo — campeão de 1910 — Vale para nós mais do que qualquer outro titulo de campeão. Naquelle tempo não entrava dinheiro realizava-se o enthusiasmo, a dedicação sem limite, o amor sem interesse. O jogador comprava, elle mesmo, seus apetrechos de victoria. Os diretores, elles mesmos, eram os technicos dos jogadores!
Eu gosto do meu Club, como adoro as plagas longínquas do meu nordeste, nas horas soltas de luar, á beira das calçadas, em frente de casa, onde se juntam as cadeiras, onde se abre a roda, onde os amigos vão chegando e vão se juntando num bate-papo que não tem mais fim, sobretudo porque não ha quem delle não se recorde, sem desejal-o de novo na mesmice das conversas sem offensa, tão cheias de nós mesmos, tão gratas e tão boas.
Vocês, que me escutam nos alpendres das casas grandes e dos engenhos e que nunca se deram ao luxo de ver isto aqui, vocês não sabem que isto aqui, dentro do Botafogo, é isso ahi, no meio de vocês.
Uma família que se junta para se perpetuar no respeito aos maioraes distantes, que o destino levou, e na confiança dos que estão vindo e virão continuamente.
Você, Corintho, ahi, em Barreiros, em Pernambuco, contempla do alpendre, ao longo das paredes, os retratos antigos daquelles que viveram ante a gloria desse recanto, cheio de um cheiro azedo de canna de assucar. Senhores de engenho respeitáveis, senhoras de recato biblico, sinhazinhas de coques na cabeça e pentes de tartaruga enfeitando os cabellos compridos, como retratou Gilberto Freyre, na sua Casa Grande & Senzala.
Nós temos aqui também, no Botafogo, essas mesmas varandas, esses mesmos recantos, onde guardamos as relíquias de 36 annos, os retratos queridos, as cartas que fazem bem ao coração, os mesmos signaes de gratidão e de estima ao passado. E que passado !
Hontem, o nosso Director Geral, Luiz Paula o Silva, falou delle, com a gratidão na bocca, a saudade nos olhos, e o orgulho tomando conta da alma inteira. Ahi, no interior do Pernambuco e por ahi, pelo Norte inteiro, quando chega um de fora, vocês dão comida, dão pousada, dão roupa de cama, dão felicidade. Aqui também. Tudo o que é nosso se destina ao bem dos outros. O abraço com que um botafoguense recebe um forasteiro é um sello que junta dois botafoguenses. Lá longe, na fazenda mineira, na usina paulista, nos campes dos pampas, como ahi, Corintho, ahi no Nordeste, como lá em cima no Norte, como dentro de Goyaz, como em todo o Brasil, existem, espalhados, botafoguenses, porque o Botafogo é um Club feito para todos vocês, para todos nós, que somos brasileiros.
Já se vão tres annos, que inaugurámos o nosso stadium. No dia da sua inauguração, juntámos as terras de todos os Estados do Brasil, não só para dizer, mas para viver a certeza de que concentramos todo o Brasil dentro do Botafogo. O nosso próprio lemma, a legenda que trazemos comnosco é esta mesma: — Pelo Brasil com o Botafogo.
Eis a mensagem de affecto que o meu Club dirige a vocês todos, botafoguenses do Brasil, pela voz do seu presidente, seguro das responsabilidades que o dominam, tanto mais difficeis quanto mais penetra o passado do Club e trabalha para o seu futuro.
Ainda muito temos que realizar. Em funcção do futuro que pretendemos construir, chegamos, agora, ao fim do primeiro passo. Para seguir, para continuar, precisamos da estimulação de todos os brasileiros e não somente dos botafoguenses, porque o amor empenhado no bem-estar collectivo nos inspira a convicção de que estamos realmente trabalhando para o bem de todos.
Aperfeiçoando o organismo, a serviço da Pátria, cultivando o espirito com um sentido civico das responsabilidades nacionaes e apurando na alma um sentimento todo brasileiro, esperamos com orgulho o dia em que possamos ser chamados para servir ao Brasil, ainda que anonymamente. O esforço anonymo é o mais nobre.
As iniciativas que vimos adoptando, no terreno material, no âmbito moral e na ordem espiritual, ccordenam-se no seu entrosamento, na execução de um programma que não é meu nem é dos que já passaram pela Presidência. É, sobretudo, daquelle pugillo reduzido de abnegados que, num porão apertado de uma casa particular, fundaram o Botafogo, guardando, no coração, e legando aos filhos e aos netos a acta de fundação, que jamais será traida, que nunca deixará de ser respeitada.
É para elles, muitos dos quaes já se foram, que se eleva o meu pensamento, jurando, deante da memória legada á nossa vida, que não trairemos o sentimento por elles dedicado ao Botafogo e continuaremos, resolutamente, a servir ao Botafogo, com as mesmas palavras, com os mesmos actos e com as mesmas idéas que fizeram do Botafogo uma vontade só e um destino cortado em linha recta.
No campo ou fora delle, dentro ou longe do Club, os botafoguenses estarão unidos deante da bandeira alvi-negra, tão simples e tão nitida, bandeira que só cederá o mastro, onde se desfralda, para dar logar a bandeira do Brasil.
Fonte: Jornal Sport Illustrado nº 124 de 22 de agosto de 1940
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Completando os festejos de anniversario do glorioso Botalogo F. C. proseguiram com incxcedivel énthusiasmo as reuniões sportivas, conforme sua própria programmação, alem dos brilhantes aspectos sociaes e mumdanos, dos quaes, como era de prever, esteve em primeiro plano o grandioso e solémne baile ao seu elegante quadro social.
Dos festejos sportivos, a semana recem-finda apresentou, como ponto alto, a competição esgrimistica entre a fina flor da esgrima carioca. Três foram os clubs que della participaram, com numerosas e aguerridas equipes: — a do club anniversariante, o Botafogo F. C, a do Fluminense F. C. e a do Flamengo.
Depois de uma longa série de bem disputados encontros, lograva a representação tricolor o melhor resultado, sahindo vencedora do interessante cotejo.
A turma alvi-negra, numerosa e bem preparada, foi no transcurso dos combates a que mais resistência soube offerecer ao vencedor brilhando em vários combates.

E assim, cumprindo um programma cheio de actividades sportivas, demonstrou o alvi-negro, o momento da sua data magna o quanto vem trabalhando e produzindo pelo engrandecimento dos sports brasileiros, não só sua actual o incansável directoria, como o seu escolhido quadro social, adepto da pratica real dos diversos sports. SPORT ILLUSTRADO acompanha com sincero interesse e grande carinho todos os esforços e Iniciativas dos nossos clubs. E tanto é isso verdade que esteve sempre presente ás manifestações alvi-negras, dentro da sua quinzena de festejos, consignando com o máximo realce as suas realizações. Marcou, através de reportagens fartamente illustradas, em números anteriores e seguidamente, no transcorrer do mez de sua fundação, os mais brilhantes feitos, taes como a sua victoria no campeonato Athletico de Juvenis, as competições de sua garotada e neste numero, além destas paginas sobre sua reunião esgrimistica, outras tantas sobre sua bella victoria no Torneio Official de Volley ball feminino.
Fonte: Jornal Sport Illustrado nº 124 de 22 de agosto de 1940
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De um modo geral a terceira rodada do segundo turno era apontada como uma das fracas do certamen. O Fluminense "leader" iria enfrentar o Bangu, penúltimo collocado. O Botafogo com duas retumbantes victorias consecutivas iria enfrentar o São Christovão que tem sido uma "caixa de pancadas" no certamen. E, finalmente, o Madureira que vem se conduzindo bem mas ainda não tem o cartaz dos "grandes", iria encontrar-se com o America club já sem qualquer esperança no campeonato. Da fraqueza com que era encarada a rodada só mesmo a tradição teria que Indicar o prélio principal. E há tradição indicava por sobejas razoes a partida Botafogo x São Christovâo, desde a lenda da phase de Cantuarla até a renhidez característica de seus encontros.
O choque entre alvi-negros e alvos desmereceu no entanto, a expectativa que si formara em seu derredor. Como exhibição technica foi um fracasso, pois o que apresentou na maior parte do seu decorrer mais se assemelhava a um "bate-bola" do que a um macth oficial. E como attracção de bilheteria foi outro fracasso, apresentando a menor renda da rodada. Salvou-se, assim, apenas, a partida disciplinar, muito embora se tenha verificado uma expulsão de campo: a de Zezé Procopio. Isso porque a impressão que ficou do gesto do half-back botafoguense era a de que não se tratava de uma reclamação ao juiz e sim ao seu adversário Mathias que conseguira arrebatar-lhe a pelota valendo-se de um foul. Do balanço geral da pugna positiva-se que a mesma não correspondeu, e que a culpa disso coube mais ao São Christovão do que ao Botafogo .O team alvi-negro mesmo sem cumprir uma actuação excepcional, jogou de forma bastante satisfatória para ganhar por 5x1. O quadro de Figueira de Mello é que positivamente decepcionou, exhibindo falhas sensíveis na sua defesa e no ataque.
Um bico de Zarcy iniciou a contagem. A saída coube aos botafoguenses que desde os primeiros momentos evidenciaram a sua melhor disposição e melhor preparo para a luta. Assim é que, após uma arrancada de Feitiço, annullada por Zezé Moreira, os alvi-negros estabeleceram-se no ataque. Tadique atirou forte em goal e Magdalena largou a pelota para a esquerda Patesko entrou de cabeça, mas mandou a bola fora. A seguir Oscarino concedeu corner, sem resultado, e Canali concluiu mal um cerrado ataque dos alvi-negros shootando para fora. Novo corner, porém, contra os alvos e desta vez concedido por Magdalena aos onze minutos, proporcionou ao Botafogo a abertura da contagem. O que caracterizou o goal de abertura foi porém, a fôrma com que Zarcy golpeou a bola. Há muito tempo que não se via um goal idêntico. Na confusão creada pela batida do corner, a bola andou "batendo" numa e noutros até que Zarcy veiu correndo e atirou de bico com tanta felicidade que acertou na pelota á meia altura.
O tiro violentíssimo, fulminante mesmo, surprehendeu Magdalena que nada pode fazer mais do que assistir a entrada da bola no seu arco.

Essa primeira vantagem dos botafoguenses teve no entanto uma duração insignificante. Nem bem um minuto era passado e o São Christovão empatava de forma surprehendente. Foi só o tempo da bola voltar ao centro, após o goal de Zarcy, e Feitiço reiniciando o jogo organizou logo um ataque perigoso, principalmente porque apanhou a defesa toda desguarnecida ainda pelo effeito da abertura do score. Na área o veterano centro-avante cedeu o couro a Curtis, o meia esquerda atirou então violentamente de canhoto. Aymoré que ensaiara uma saída de goal não pôde deter o balão que assim foi as redes, decretando o empate da pugna aos dois minutos de luta. A rapidez e decisão do contra-ataque sanchristovence estabeleceu então novamente a duvida na impressão dos "observadores" que já estavam dispostos a considerar o match para o Botafogo". Admittindo-se que os alvos pudessem afinal de contas desfazer aquella impressão de descontrole que se vinha observando nos momentos iniciais da luta. Os alvi-negros acreditaram assim tambem e lançaram-se fortemente á novo período ofensivo. E quatro minutos depois construíram nova vantagem. Escapou Patesko, aos dezesseis minutos, e passando com esforço por Mundinho conseguiu "puxar” a bola da linha de fundo para dentro da área. Bem collocado então em frente ao arco Paschoal shootou no canto superior esquerdo, vencendo Magdalena pela segunda vez na tarde.O goal foi de Patesko, e o centro de Tadique, mas a jogada básica e a mais notável foi de Paschoal. O commandante de ataque alvi-negro recebeu o balão de Zezé Moreira e ameaçou de entrar com elle na área. Os zagueiros correram sobre elle e Paschoal então voltando-se rapidamente cruzou a pelota, largamente para a extrema direita onde Tadique ficara desmarcado. O ponteiro paranaense avançou um pouco mais e centrou forte para a esquerda. A pelota cruzou a área sem que fosse alcançada pela defesa alva o foi cair quase ao lado da meta. Patesko então que vinha acompanhando o lance, entrou justo sobre a pelota, levando-a para dentro das redes numa "carga" impressionante que privou Magdalena de qualquer possibilidade de defesa. Um goal indefensável, e que fol realmente notável desde a jogada mestra de Paschoal até a entrada fulminante de Patesko.
Conseguiu assim o Botafogo a primeira distancia folgada no placard: 3x1. Os alvos desta vez não tiveram mais forças para os contra ataques decidos que vinham organizando após cada goal do Botafogo. Ao contrario foi Magdalena, logo a seguir, quem teve de deixar o arco numa occasião critica, para afastar com uma rebatida de pé um "rush" de Paschoal. O São Christovão aos trinta e sete minutos fez sair Nestor e entrar Joaquim na meia direita. O tempo porém encerrou-se logo após sem outra variante no cartaz.
A segunda phase foi sem duvida, a peor do macth. O São Christóvão desceu ainda mais seu nível technico o Botafogo teve seu rendimento diminuido ou pela certeza da victoria, ou por uma consequencia - reflexo da má actuação do adversário. A entrada de Dodô no logar de Archimedes, que se contundira, não chegou a resolver o problema do team alvo na densiva. E na linha de ataque Feitiço, que se destacara, nos minutos iniciaes do match, pela intelligencla dos seus passes, passou a constituir-se uma figura nulla collocado entre os zagueiros alvl-negros a espera de bolas que nunca vinham.
Dahi o dominio nítido que os alvi-negros puderam exercer durante quase todo o período final, domínio esse que viria proporcionar a Magdalena um trabalho consecutivo, além da elevação da contagem para o final de cinco a um. O reinicio da peleja foi feito por Intermédio de Feitiço. E a defesa sanchristovense passou desde logo a se ver embaraçada ante as situações que freqüentemente lhe eram armadas pelos botofoguenses. Após ter sido attingido por um foul de Joaquim, Patesko, já refeito, entregou a Paschoal uma bola de "pae para filho” a boca do arco. Paschoal quis ageitar demais a pelota e atirou para fora.
Magdalena teve então um perído de trabalho lúcido e frequente, por duas vezes Paschoal ameaçou o arco dos ''brancos", mas em ambas Magdalena deixando o arco salvou oportunamente a situação, afastando o perigo. A resistencia do goleiro visitante foi, no entanto, vencida novamente aos 16 minutos por um tiro de Tadique. Patesko centrou largo, após uma boa investida e o ponteiro direito valeu-se bem da opportunidade para vencer, pela quarta vez a cidadela de Magdalena. E ficou assim estabelecido o placard de 4x1. Minutos depois o Botafogo considerando segura a victoria quiz fazer entrar Carvalho Leite em logar de Zarcy. Mas já havia decorrido o 20° minuto e de accordo com a nova regulamentação, Carvalho Leite não pôde entrar em acçâo.
Aos vinte e sete minutos o Botafogo ficou com 10 homens pela espulsão de Zeze Procopio, que tivera um gesto qualquer interpretado pelo juiz Guilherme Gomes como desrespeito.
Fonte: Jornal O Globo nº 102 de 2 de agosto de 1940
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Os problemas do velho team do Botafogo
Com Martim succede outra coisa. Foi sacrificado em 39. Tudo aconselhava a conservação literal de um onze que vinha vencendo. Mas havia os que desejavam influir de alguma maneira, na conquista do titulo. Praticamente o Botafogo era o campeão. Dahi a inclusão de Martim em uma peleja que cortou a trajectoria victoriosa do ponteiro do campeonato. Os factos vieram provar que o sceptro não estava garantido O Botafogo acabou segundo collocado e muitos apontaram Martim como culpado. Martim foi o que menos culpa teve. Não pediu para jogar e só jogou porque se impediu que Kruschner escalasse o tam. A debacle do terceiro turno constituiu uma dura lição, mas Botafogo não soube aproveital-a. Tanto que, em nota official, Botafogo aí firmou que possuía a melhor linha média das canchas brasileiras. Um club que colloca o seu team como "primus Inter pares" não pode admittir derrotas. Pelo menos não as comprehende. Agora o Botafogo se convenceu de que não possue o melhor team. Mas resolveu modificar tudo a principiar pelo tecnico. Veiu Pimenta e Pimenta surge como o inicio de uma reforma. Suppõe-se que o coach do campeonato do mundo arrastará os cracks da seleccão mineira que ia a La Paz. Verifica-se, portanto, que a revolução operada no Botafogo é, apenas, uma tentativa. O technico não tinha culpa, Martim não tinha culpa, o team não tinha culpa. Quem tinha culpa, afinal ? O Botafogo fizera em 39, por occasião do segundo turno, uma espécie de milagre. Mas ninguém quiz olhar a façanha do "velho quadro” por esse aspecto. O Botafogo insistiu em julgal-a natural, e por isso não escutou os avisos do bom senso. Quando se tratou de reagir era tarde demais. Ficou Martim, porém, como um symbolo. Era um Ídolo que se sacrificara em holocausto á vaidade dos paes do campeonato.
A Differença Entre 1939 e 1940
A confiança do Botafogo repousa em uma linha média, embora tivesse sido ingênua a affirmação da nota official depois da pele ja contra o Flamengo. Em 39 a proeza do Botafogo se deveu mais á aggressividade do ataque. Mas agora a offensiva alvi-negra perdeu seu ímpeto pela queda de producção de Peracio e pela contusão de Carvalho Leite. Indiscutivelmente o Botafogo teve uma grande opportunidade de levantar o campeonato, mas não soube aproveital-a. Tal opportunidade se offereceu em 39. A temporada de 40 não apresentou as mesmas alternativas. Basta reparar na profunda differença entre os segundos turnos dos dois campeonatos. O rival do Botafogo em 39 era o Flamengo e continua a ser o Flamengo. Agora porém o duello para a conquista do titulo não se trava mais entre o Flamengo e o Botafogo e sim entre o Fluminense e Vasco, o primeiro dos quaes está a quatro pontos do segundo collocado e a cinco do terceiro.
Sabe-se que um dos males do football brasileiro é a falta de renovação de valores. Naturalmente ninguém desconhece a falha. Há porém, os que procuram iludi-la com paliativos. O Botafogo, por exemplo, conserva a physionomia do quadro de 34, procurando colocar-se no mesmo plano das campanhas de 30 e 32. Ayrmoré não pertencia ao Botafogo, mas vem de 31, Martim. de 30; Zezé Moreira, de 28; Carvalho Leite de 39 Canalli de 30; Álvaro, de 30... Antes do inicio do campeonato se fez um estudo sobre a idade do team do Botafogo: vinte e sete annos, apesar de Graham Bell, de Araraquara, de Zezé Procopio e de Peracio, os mais jovens. Cada anno que passa o quadro alvi-negro fica mais velho. E verdade que, hoje se observa uma tendência de rejuvenescimento. Contratou-se Tadique, Araraquara, Heleno, mas Pimenta pretende trazer Niginho, super-velho, além de outro naturalmente mais novos do scratch mineiro. De qualquer maneira se torna fácil observar a preoccupação conservadora do Botafogo. Para o Botafogo entregar-se a reformas foi preciso a desillusão de 39. E em relação á desiliusâo de 39 vale a pena observar uma coisa: o team não teve culpa do que succedeu. Foi antes uma victima dos casos que não creou e nem fez nada para creal-os. Assim, o Botafogo sustenta uma theoria certa - a necessidade de rejuvenescer o team - mas parte de um ponto de vista errado pelo exame das causas da debacle de 39 - essencialmente politicas. Por outro lado não é tarefa fácil encontrar bons elementos novos. Em primeiro logar pela prohibitiva lei de transferencias. Em segundo logar, pela escassez quasi absoluta de tempo para experiências. Em terceiro logar. pela exigência premente de victorias. O Botafogo entregou-se á reforma com o objectivo único de vencer. Se está em um terceiro logar pretende, sem duvida alguma, um segundo e só um segundo posto pôde satisfazel-o. Poucos sabem o que isso representa. O momento é o menos favorável possível para alterações. Mas cedeu o Botafogo á necessidade de fazer alguma coisa. E alguma coisa foi a substituição de Kruschner por Pimento em bom se reconhecesse que Kruschner tinha feito muito com o "velho team”. Assim o Botafogo vive um momento dramático A equipe recebeu uma advertência. E a advertência severa. E segundo o calculo dos reformadores, impõe uma reacção. Não vale a pena indagar se ella virá. Talvez se opere o milagre, mas é difficil que isso suceda, tendo em vista não só a idade do team do Botafogo como tambem a falta de reservas. A responsabilidade de Pimenta por isso mesmo, cresce. Elle a aceitou sem temor de nenhuma espécie. Se fracassar será mais um fracasso ...mas houve uma estrela que brilhou e pode brilhar novamente.
Fonte: Jornal O Globo nº 106 de 30 de agosto de 1940
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A estréa auspiciosa de Geninho não foi só uma conquista do Botafogo; foi mais um serviço que Pimenta prestou ao foot-ball brasileiro, recrutando "cracks" desconhecidos de Minas Geraes para brilhar em campos da metrópole. Esta gravura representa o capitulo mais significativo da historia sportiva de domingo ultimo, pois mostra Batataes batido pelo tiro secco do estreante, que sabe construir e também marcar tentos.
Reviveu domingo em Wenceslau Braz a tradição do clássico Botafogo x Fluminense, com todas as suas características de um passado saudoso. Luta renhida, publico numeroso, phase de sensação e esforço pela victoria. Pode-se dizer, em synthese, que o espectaculo correspondeu e agradou plenamente. Apenas o placard não exprimiu com realidade o panoram do match no seu aspecto technico propriamente dito.
O Botafogo mereceu vencer e não seria exaggero accentuar-se que o seu triumpho poderia ser por uma contagem bem expressiva. Mas a chance foi madrasta dos alvi-negros, dispondo-se a auxiliar apenas um dos contendôres, justamente o leader absoluto do campeonato. Caso derrotado o Fluminense no grande embate de domingo, a sua torcida deixaria o stadium de General Severiano conformada.
O revez não seria humilhante para os tricolores, pois o seu adversário jogou melhor foi mais technico, mais aggressivo e, sobretudo, senhor do campo durante os 40 minuto finaes. Faltou-lhe para vencer o que sobrou ao Fluminense para empatar: — o factor sorte. Uma série de vezes, na etapa derradeira da luta, as pelotas atiradas fulminantemente contra o arco tricolor encontraram os postes, batiam sobre Batataes, ou então eram desviadas por um bico de shooteiras milagrosas. Assim, dominando francamente o Botafogo foi trahido na consecução dos seus justos objectivos, emquanto o leader logrou deixar sem merecer, campo levando para os seus domínios um empate conseguido no minuto derradeiro da primeira parte. De qualquer forma, porém, a rehabilitação do Botafogo se projectou ante uma exhibicâo satisfatória, onde se deve salientar, sem jactancias, o trabalho de Pimenta, o technico clinico nacional que sabe o que faz e vale pela sua producção efficiente e dedicada. E ultima analyse, deve-se considerar a actuação do juiz como compromettedora para o brilho completo do espectaculo. Mas, não é tanto a culpa de José Peixoto, e sim de quem o designou lamentavelmente para dirigir um clássico... Fonte: Jornal Sport Illustrado nº 127 de 12 de setembro de 1940
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BOTAFOGO 2 X 2 FLUMINENSE
1 - O segundo choque Botafogo x Fluminense, de 1940, apresentou sem duvida um ponto de semelhança com o primeiro: — a marcha do placard. No primeiro o empate, de 3x3 só surgiu depois dos alvi-negros terem ostentado uma vantagem de 3x0. Agora no segundo, também o empate de 2x2 só veiu a se verificar depois de estar o Botafogo vencendo por 2x0. Como se vê em ambas as contendas o vice-campeão chegou a ostentar vantagens quasi tranquillzadoras para um triumpho. No entanto foi essa apenas a única affinidade existente entre o choque do turno neutro e o prélio de domingo ultimo correspondente ao primeiro turno. Porque verdadeiramente as características geraes de um e outro prélio foram bem dispares. No primeiro o Botafogo dominou nitidamente o primeiro tempo, quando conseguiu os seus tres goals mas também foi nitidamente dominado no segundo período quando o Fluminense fez os seus tres tentos. Duas phases que vistas de conjunto surprehendem pelo inesperado de uma reviravolta tão accentuada, mas que analysadas de per si, apparecem naturaes apresentando cada team em cada phase a producção real que offereceu. O Botafogo dominou quarenta minutos e nelles fez tres goals. O Fluminense dominou os outros quarenta e tambem nelles fez tres goals. Agora ja com a partida de domingo as coisas correram de maneira diversa, principalmente no que se refere ao conjunto botafoguense. Assim é que no primeiro período não houve propriamente domínio, e o score de 2x2 appareceu assim como um resultado aceitável, perfeitamente enquadrado na logica do desenvolvimento do jogo. Mas o segundo tempo não um desfecho lógico.. O Botafogo dominou inteiramente essa etapa final mas não conseguiu concretizar esse domínio com um só goal siquer. E isso veiu real reafirmar a dissemelhança das caracteristicascas dos dois choques entre alvi-negros e tricolores es em 1940.
A partida deu, de Inicio, a impressão de que o Botafogo iria repetir o primeiro tempo do turno neutro. A começar pela abertura da contagem quando ainda não havia decorrido um minuto de jogo. Foi verdadeiramente um goal relâmpago e que poderia ter exercido uma influencia desastrada sobre o conjunto do "leader" se não fosse ele possuidor de uma classe digna da posição que ocupa na tabella. Mas voltemos ao goal. Os tricolores tiveram o direito de saída, mas perderam a bola imediatamente para os alvi-negros Zezé Procopio esticou para Paschoal que em posição muito avançada, parecendo até em impedimento, centrou rasteiro para a esquerda.E Peracio "entrando" com opportunidade na bola mandou-a as redes, com um daquelles seus famosas tiros, igualando o 1º goal do Botafogo aos trinta e cinco segundos ele jogo, pouco mais ou menos. O goleador famoso que reaparece mais uma vez contra tricolores justificava assim a sua inclusão com um goal de sensação em menos de um minuto de jogo. O quadro alvi-negro que entrara em campo com muita disposição de vencer, animou-se ainda mais com o goal de Peracio e mostrou logo ao leader o grande perigo que o ameaçava. Assim é que os alvi-negros voltaram a carga e mais um off-side de Pascoal e outro de Patesko a seguir anullaram suas investidas perigosas levadas a efeito contra as barras tricolores. Comtudo os botafoguenses ainda não conseguiram neste instante estabelecer qualquer tipo de domínio. Atacaram um pouco mais, mas também foram atacados.

1. O que resaltava da luta porém, forma índisfarçavel, era o maior enthusiasmo dos vice-campeões de 39.
A volta de Peracio em boa fôrma, e a inclusão de Geninho a meia direita augmentaram não só a technica do team como lambem deram-lhe o animo de maneira bem aceentuada. O enthusiasmo espoucava em todos as linhas botafoguenses, apresentando por isto mesmo o team dirigido por Pimenta como mais perigoso. E foi assim que não representou surpresa a elevação da contagem pelos alvi-negros aos doze minutos da luta. O lance nasceu de uma falha de Bioró que permitiu a passagem da bola para Patesko. O louro ponta esquerda avançou bem e centrou com opportunidade sobre a área.O couro foi recolhido por Geninho que com shoot indefensável decretou a segunda queda do posto de Batataes. O quadro tricolor como que sentiu então todo o peso da sua responsabilidade. O desconsolo reflectido nas physionomias de Batataes e Norival quando tiveram que devolver a pelota no centro do campo era bem um indicio do desanimo que ameaçava a producção dos "leaders".
3 - Mas a bola veiu ao centro e os deanteiros tricolores incumbiram-se de reerguer o animo combalido da defesa. E uma investida perigosa conduzida pela esquerda proporcionou um momento de perigo para o arco de Aymoré. Carreiro entrou ameaçadoramente mas o "mignon" arqueiro do Botafogo deixando o arco, afastou o perigo, fazendo espectacular defesa. Insistiram, porém, os tricolores na reação e, quatro minutos depois do feito de Geininho, verificou-se a reducção da vantagem dos botafoguenses com a primeira queda do arco de Aymoré. Coube a Carreiro, o perigoso ponta esquerda tricolor, a conquista do goal. Milani, de posse da pelota, avançou um pouco pelo centro e esticou para a esquerda, Carreiro, então, correndo sobre a bola atirou forte e enviesado para fazer, aos dezeseis minutos de jogo o primeiro goal tricolor.
4 - A reacção dos tricolores proseguiu e a defesa do Botafogo viu-se forçada, a conceder dois corners consecutivos. O primeiro por Zézé Moreira e o segundo por Granam Bell. Nessa occasíão o zagueiro direito contundiu-se e deixou o campo, sendo substituído por Bibi. Chegou-se então a admittir que os tricolores não tardariam a desfaser a díferença contraria, pois considerava-se a retlrada de Graham Bell como um enfraquecimento da defesa. No entanto, Bibi não tardou em desfazer essa impressão, surprehendendo com intervenções seguras. Estava escripto porém, que o empate viria ainda no primeiro tempo. E veiu realmente, por intermédio de Adilson.

5 - Entrava a peleja no minuto final, quando o Fluminense foi mais uma vez ao ataque. Romeu, de posse do balão, cobriu Araraquára, estendendo o couro para Adilson, o ponteiro direito leve que lutar ainda com o zagueiro esquerdo antes de marchar firme sobre o goal. Mas, então; shootando alto na corrida, embora difficiImente; por força da sua posição inviezada no momento do shhot conseguiu alojar a pelota no arco de Aymoré, assignalando assim o goal de empate. Goal esse que como era justo te se esperar, foi festivamente recebido pelos tricolores. Adilson foi vivamente cumprimentado pelos seus companheiros, enquanto Aymoré apanhava o balão no fundo das redes sob as vistas de Araraquara. Não havia mais tempo, porém, para que os alvi-negros tentassem qualquer nova alteração do placard. A bola veiu no centro e a primeira etapa da luta foi encerrada acusando o placard um empate de 2x2, com uma circunstância interessante a observar-se. O Botafogo abrira o score com menos de um minuto de jogo e o Fluminense conseguira o tento de empata faltando menos de um minuto para o encerramento da phase.
7 - Quando os teams voltaram a campo para o segundo tempo, observava-se uma alteração no Botafogo. Canalii cedera o seu logar a Zarcy. O veterano médio esquerdo titular que reapparecia após alguns matches de ausência não se vinha exhibindo com a firmeza esperada e assim foi retirado para dar logar ao ex-half do Olaria. No Fluminense nenhuma modificação foi feita. Esperava-se que a nova etapa apresentasse o Botafogo algo desanimado, desarvorado, talvez, por ter visto se desfazer uma dífferença de dois goals tão animadoramente construída nos primeiros minutos da luta. No entanto, o quadro vice-campeâo surgiu surprehendentemente de energias renovadas, lançando-se novamente ao ataque com a impetuosidade dos minutos iniciaes da contenda. O segundo tempo, todo, alias, iria constituir um espectaculo empolgante da luta da ofensiva alvi-negra, magnificamente apoiada pelos seus médios, com Zezé Moreira em destaque contra a defesa tricolor, ou melhor dito, contra o trio final tricolor. Porque a verdade é que a linha media do "leader" não correspondeu ao que dela se esperava. Bioró e Marazzo "pivot" agiam com falhas, e Spinellí, que vinha se destacando ultimamente como um de efficiencia realçada, não conseguia reproduzir as suas performances mais recentes, constituindo-se um ponto fraco, no nivel dos seus companheiros de trio.
A PRESSÃO BOTAFOGUENSE
A grande pressão botafoguense, todavia, só se fez sentir em toda a sua plenitude depois de decorridos uns dez minutos da etapa final. Os tricolores ante as cargas cerradas dos alvi-negros, e verificando a insufficiencia da sua linha média para conter o ataque botafoguense, resolveram lançar mão de um recurso defensivo paro permitir a estabilização do placard — o recuo absoluto dos meias. E Romeu e Tim passaram então a auxiliar decididamente os médios, recuando sempre.
Tal tecnica, se emprestou maior segurança á defensiva permitiu por outro lado que o Botafogo pudesse agir mais a vontade com Carreiro a incommodar-lhe de vez em quando a defesa. O ponteiro esquerdo, aliás, num desses seus avanços isolados contundiu-se ao receber vários pontapés, tendo deixado o campo para receber socorros. Depois desse lance, o jogo ameaçou degenerar registando-se varias jogadas bruscas, com rasteiras e pontapés a esmo destacando-se Zezé Procopio e Spínelli no emprego desses processos condemnáveis de jogo.
9 – Acima de tudo porém a offenslva do Botafogo encontrou uma "barreira" Insuperável: — Batataes. O arqueiro tricolor agigantou-se domingo no gramado de General Severiano, reaffirmando as suas magníficas qualidades. Demonstrou Batataeas encontrar-se em plena fôrma e que nada perdeu da classe que o elevou ao plano dos primeiros arqueiros do país, bastando para essa reaífirmaçâo que lhe apparecesse um dia de "trabalho- rigoroso”. Contra o Botafogo Batataes foi realmente um gigante. Contou sem duvida, em algumas vezes com a proteccão das traves, mas o numero de intervenções sensacionaes que praticou foi o bastante para o collocar como a maior barreira encontrada pelos botafoguenses e como o maior homem da sua equipe.
10 - Dominando, embora, inteiramente o segundo tempo o Botafogo não conseguiu fazer goal. Teve assim que se contentar um empate de 2x2, numa peleja em que poderia se ter-se sagrado vencedor. Não se pôde porém accusar os alvi-negros de dispersivos ou de inefficientes os atacantes de General Severiano. Muito ao contrario a linha alvi-negra multo melhorada com a Inclusão de Geninho, um player de classe natural, sem artifícios, e com a volta de Peracio, apresentou nesse segundo período uma exhibiçâo soberba de aggressividade, de persistência na perseguição ao arco. O meia esquerda montanhez. principalmente, surprehendeu. Desembaraçado e shootador como nos seus áureos tempos, Peracio foi uma attracção no ataque do Botafogo no segundo tempo. O que faltou, porém, ao vice-campeão de 39 foi o factor "chance". Com um pouco de chance os alvi-negros teriam se assegurado da victorla a que fizeram jús. Três vezes, por exemplo, com Batataes praticamente vencido a bola chocou-se com a trave, em shoots de Peracio e Patesko. Emquanto isso o esquadrão "leader” limitava-se á defensiva. Inferiorizado nitidamente ante o adversário mais decidido e enthusiasta. Poucas vezes o quadro tricolor terá se inferiorizado de fôrma tão acentuada como no segundo tempo do choque de domingo no stadium de Wenceslao Braz. Daí o ter sabido a injusto o empate consignado ao final da pugna. Um empate que, todavia, serviu para melhorar as possibilidades das demais concorrentes principaes de vez que reduziu para três pontos a vantagem que o “leader” ostentava sobre o segundo colocado.
Fonte: Jornal O Globo nº A00108 de 13 de setembro de 1940
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Campeonato Estadual de Atletismo
Salto em altura — Juvenis de 1ª — Campeão — Domingos Cavalcante — Flamengo — 1m.,51, 2º — Octavio C. B. Mello — Botafogo — 1.46, 3º — Benedicto Pires — Flamengo — 1,40, 5º —Oscar B. Monteiro — Botafogo - 1,36, 5º-— Rodolpho Wlaschitz Botafogo — 1,36. Salto em altura – Juvenis – 2ª Campeão - Pedro Hurpia - Botafogo — 1,65, 2º — Paulo Garcia — Botafogo — 1,60, 3º — Paulo Vianna — Botafogo 1,60, 4º — Ayrton Maia - Fluminense 1,55, 4º - Bernardo Berredo - Flamengo - 1,55, 4º— Hans Guntes Roste – Fluminense - 1,55, 4º Sergio Maia – Fluminense - 1,55.
Salto com vara — Juvenis do 2ª - Campeão, Eduardo Aguiar - Botafogo — 2m50, 2º Alfredo Roxo – Flamengo – 2,40,
1ª semi-final – 50 ms – Juvenis de 1ª – Eltes Arroxelles — Flamengo — 6"'7, 2º — Godofredo P. Passos - Botafogo, 3º Nelizio Mario dos Santos - Botafogo, 4º — Sobastião Kastrupp — Flamengo.
50 ms. 2ª semi-final — Juvenis - de 1ª — 1º — Tolini Pappa — Botafogo — 6"4, 2º — Benedicto Pires - Flamengo, 3º — Flamengo, David Ribeiro Guedes - Botafogo, 4º - Paulo Braga - Fluminense.
50 ms. Final — Juvenil de 2ª - Campeão, Telini Pappa —Botafogo -- 6"6, 2º — Godofredo Pereira - Botafogo, 3º — Elles Arroxelle— Flamengo, 4º — Benedicto Pires — Flamengo, 5º David Ribeiro — Botafogo, 6º Nelicio M. Santos – Botafogo.
Arremesso da pelota — Juvenis de 1ª — Campeão, Elles Arroxelles — Flamengo — 85ms.,35 (record), 2º- David R. Guedes — Botafogo — 80,45, 3º — Octavio C. Barba Mello — Botafogo —80,01, 4º— Paulo R. Santos — Flamengo – 79,71.
300 ms. final — Juvenis de 2ª - Campeão — Antônio Aguiar — Botafogo — 39"8 (record), 2º — Celso Guaraná de Barros — Botafogo, 3º — Haroldo Paim — Fluminense, 4º — Oswaldo Cruz - Botafogo, 5º — Rodolpho Borghorff — - Flamengo, 6º — Arnaldo Silveira — Flamengo. Arremesso do disco — Juvenis de 1ª — Campeão, Hugo Hamman — Flamengo — 30ms.,45 (records), 2º — Domingos Cavalcante — Flamengo — 29,11, 3º -- Mario Montagna — Flamengo — 26,62, 4º -- Odilson Benzi — Botafogo — 24,39, 5º — Haroldo Pinto. Pacca — Botafogo — 21,72, 6º — Alyrio Leal – Botafogo – 21,11.
Arremesso do peso — Juvenis de 2ª — Campeão, Luiz Cotrim - Botafogo — 11m11, 2º — Sérgio Montagna — Flamengo — 10,80, 3º — Benedicto Souza — Botafogo — 10,51, 4º — Humberto Adamo — Flamengo — 10,30, 5º — Nilceio Monero — Botafogo 9,97, 6º — Braulio Moreira – Flamengo – 9,43.
Fonte: Jornal Sport Illustrado nº 119 de 18 de julho de 1940
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PERÁCIO, a criança grande do foot-ball brasileiro.

PERACIO não se parece com Leonidas. Possue qualidades diferentes e outros de. Pensando bem Peracio constitue um caso aparte. O caso Peracio, como Leonidas representa o caso Leonidas. Talvez se julgue a conclusão bastante complexa. Ou então, simples demais. Logicamente Peracio teria de fornecer todos os elementos para a classificação do caso Peracio. Mas se torna preciso reparar em um detalhe. Surgiu uma espécie de convicção de que existe um "mal" do crack brasileiro. As difficuldades encontradas para a solução do problema residiam, portanto, unicamente ahi. E isso porque não adeantava nada corrigir um jogador determinado. Um poderia ostentar disciplina, porém os demais continuariam inalteravelmente os mesmos. Ora, a differença profunda entre os casos de Leonidas e Peracio mostra que não ha o vicio commum. Cada jogador exhibe defeitos "seus", exclusivamente "seus". Defeitos e qualidades. Peracio, por exemplo, merece um estudo. Nada o conseguiu modificar. Ainda é uma "criança grande" que veiu de Villa Nova. A prova está em que, de vez em quando, ameaça voltar. Não o assusta o regresso. Pelo contrario: em alguns momentos o retorno representa um sonho demasiado bello. Vê uma cidadezinha, a tranqüilidade, a vida pacata e feliz da província. Todo o esforço de Peracio se concentra em tornar supportavel a "carreira de crack". Ninguem, por isso deve recordar-lhe a prisão de um contrato. O contrato é o de menos. "Se eu quiser não jogo! E ás vezes não quer. Então se tem de convencel-o com razões sentimentaes. Nenhum outro jogador attende melhor á voz do coração, Kruschner comprehendia a resistência de Peracio. E como o comprehendia não o censurava. Para Peracio o afastamento de Carlito tirava toda a graça que tinha o football, Carlito apostava contra o Botafogo. "Não tenho sorte em apostar. Assim quando eu aposto perco sempre. Vocês são Botafogo e eu sou o adversário do Botafogo. Quero perder ganhando". Tal linguagem enthusiasmava Peracio. De repente deixaram de lhe falar daquella maneira. Kruschner, em um máo português, referia-se á missão do meia esquerda, Peracio perdia a paciencia e perguntava, com a maior ingenuidade deste mundo: — "Por que o senhor não gosta de mim ?". Kruschner experimentava embaraço e Peracio ria. Sabia soltar gargalhadas estridentes nos instantes mais austeros. Mas se o multassem, era peor. Pernecio ahi annunciava uma desillusão amarga. Finalmente, que lhe poderia dar o football ? Não lhe dava dinheiro, pois sempre estava sem dinheiro.... E o Packard ? O Packard servia como um passatempo. Também se o football não chegasse para um Packard seria melhor nunca ter pensado em dar um shoot. E o profissionalismo ? Pois Peracio não chegou a tomar conhecimento do profissionalismo. Naturalmente exige maiores luvas. Em um dado momento foi o jogador mais caro do Brasil. Dos sessenta contos recebidos não há nem sombra. A vida de Peracio o menino grande não apresenta coherencia. Gasta, geralmente, mais do que ganha. Mas nem por isso se sente obrigado a jogar football. Nem o assusta a perspectiva de abandonar o football de um momento para o outro. Então que faria Peracio? A pergunta parece' exigir uma pergunta de Peracio: Só Peracio poderia respondel-a. Acontece, porém, que Peracio não pensou ainda sobre o assumpto... Para que se preoccupar com o futuro? Talvez por isso Peracio não muda. Continua sempre jovem. Ninguém pode surprehender-se com Peracio. Nem quando Peracio resurge, subitamente. Em principio de quarenta se admittia o declínio de Peracio. Um medico concluiu pelas escassas possibilidades de cura. Mas o Peracio que reappareceu contra o Fluminense era o Paracio que veiu de Villa Nova ainda chucro porém com um impeto arrazador. De quarenta jardas despejava tiros assustadores. As bolas faziam estremecer as traves e uma onda de enthusiasmo agitava a multidão. E por que Peracio reapparecia assim ? Treinara pouco. Um bello dia fugira da sede do Botafogo para que não se pensasse que pretendia reformar o contrato. "Quando o Botafogo explicou que Geninho não viera para substituir o "insubstituível" Peracio, o "menino grande" abriu-se todo em um sorriso. E dispoz-se desde logo a renovar o compromisso. Os sessenta contos reduziram-se a quinze. "De que vale porém, o dinheiro? Afinal de contas tudo vem a dar no mesmo. Peracio garatuja o nome comove-se e volta a occupar o mesmo leito ao lado dos companheiros. A fôrma de Peracio depende mais da satisfação intima da solução de pequenos problemas por assim dizer domesticas, do que de continuidade de treinos. Treinando todos os dias Peracio pôde fracassar. Mas se lhe assegurarem que o Botafogo precisa delle, que delle depende a sorte do Botafogo, Peracio esecuta compenetrado e, dentro do campo, se desdobra Não importa que, depois, caia exhausto em um banco do vestiário e que quasi não possa falar. Um abraço é a recompensa maior. Naturalmente não se torna fácil lidar com um jogador como Peracio. Qualquer coisa o magoa. E magoado, não explode. Fica, porém, a resmungar. Sente-se de facto mal "não sabe porque". Ás vezes se tenta corrigir Peracio. Mas a multa não produz resultado de espécie alguma. E, o que é mais, Peracio raramente se zanga por uma multa. Brinca sempre, inclusive com o Botafogo. De uma feita "brincou de esconder" com o presidente João Lira Filho. Pensava o paredro que Peracio estava dormindo. Viu-o entrar no dormitório. Isso o tranquillizou. Depois quando lhe disseram que Peracio passara a noite fora do club não acreditou. Peracio aliás, perguntou em que noite tinha sido. O presidente João Lyra não se recordava bem. E Peracio afirmou que passara toda a noite da vespera do jogo no dormitório do club. Mas não se tratava da noite da véspera e sim da noite de depois do jogo. Então Peracio sem se confundir concordou. Realmente saíra na ponta dos pés e só fora visto pelo vigia. Mas eu nunca disse que dormi tal noite no club. Riu satisfeito e nem se magoou com a multa. Assim é Perácio, a criança grande do football brasileiro.
Peracio antes de vestir a camisa do Botafogo passou uns dias no Fluminense. Daquella vez falou mais forte a voz do coração. Tanto que elle voltou para Villa Nova e depois da pacificação é que, inesperadamente, se transferiu para o Botafogo. Mas o Botafogo tratou de, previamente, vencer os obstáculos sentimentaes. Peracio veiu com o consentimento materno e com o passe livre do Villa Nova, comprado por algumas dezenas contos de réis. Dentro do Botafogo criou raízes e acabou confessando que se algum dia fôr forçado a deixar General Severiano será para abandonar definitivamente o football. É dificil, aliás, que se adapte em outro club. O Botafogo, hoje, conhece Peracio e sabe como obrigal-o a um esforço maior.
De 37 a 40 lá se vão três annos. Peracio porém continua o mesmo. Um dia resolve reviver a historia do calção no football brasileiro. E sozinho, faz a festa. Antes que alli solte a primeira gargalhada. Peracio já está s sul focar de rir. Uma "criança grande". Basta recordar uma scena de treino. Kruschner explicava aos Jogadores do Botafogo uma tactica para uma peleja importante e Peracio, com a physionomia mais compenetrada deste mundo abaixava-se, de quando em quando, para levar a boca um punhado de grama, Não ria. Arregalava os olhos mastigando ruidosamente o capim. Kruschner espantou-se e Perácio, com as bochechas cheias, respondeu de modo quasi inintelhigivel: "Eu não posso falar". O technico balançaria a cabeça. Uns achariam graça. Outros censurariam a brincadeira. Mas Peracio estava satisfeito, contente e feliz. Em verdade pertencia á corrente contra Kruschner. Pensando bem, porem, não era inimigo de Kruschner, "O football sem Carllto perdeu a graça". Para Peracio perderia mesmo etinha de refugiar-se em uma comedia qualquer. "Seu" Kruschner - dizia Peracio eu não sei porque o senhor não gosta de mim. Mas fique tranquilo eu só me divirto antes do jogo.

Não é uma criança. Ahi cresce, realmente, pelo Ímpeto do enthusiasmo. Uma prova de fibra de Peraclo foi fornecida na disputa da "Çopa Roca", trajetória de Leonldas não venceu Gualco, mas abriu a cabeça de Peracio. Apesar de tudo Peracio continuou, cheio de ataduras, perseguindo o goal com fúria maior. Depois apresentava uma razão consoladora: "se o pé de Leonidas não tivesse batido no meu craneo Gualco não defenderia aquella bola... E tudo correria bem. Não haveria briga em campo e chegaríamos a disputar a terceira partida".
Se não fossem os momentos de alegria e alegrias provocada por ele próprio, Perácio não resistiria aqui muito tempo. Geralmente o craque da província se adapta. Batataes, por exemplo, quando chegou ao Fluminense ficou de boca aberta e não se cansou de percorrer a cidade tricolor. Tinha quase medo de descer para a Avenida. Começou a contar anedotas, perdeu a timidez, tornou-se carioca. Perácio não. Continua villanovense até a medula dos ossos. Por isso, de vez em vez ameaça voltar. E a ameaça sygnifica justamente que Peracio não se adaptou. Está aqui porque, ora lhe pedem que fique. Quase nunca dá um salto até Villa Nova. Prefere ruminar a saudade. Romeu, já cidadão carioca, aproveita todo o Intervallo do campeonato para passar um ou dois dias em São Paulo. Peracio prefere ficar aqui. Assim Villa Nova nada perde de seu encanto. Se fosse lá tal vez se sentisse carioca. Que adiantaria, porém, sentir-se carioca ? Apenas Peracio acabaria perdendo um pouco de personalidade. Não teria mais um motivo forte de sacrifício pelo Botafogo. "Um dia eu irei até a montanha para ficar definitivamente. Não quero ir como um simples turista. apressadamente. Preciso de todo o tempo. E só terei todo o tempo quando abandonar o football de uma vez por todas. Talvez não abandone o football mas jogarei quando quizer, como quiser, sem perigo de multa. E então chegará a minha vez. Enquanto espera a "vez" Peracio vae ficando, creando hábitos teimosos, difficeis de tirar mas continua fiel comsigo mesmo a despeito dos annos que passam. Se duvidarem muito Peracio é uma dessas felizes creaturas sem anniversarios. Ou que fazem annos para tráz, remoçando sempre...
Com altos e baixas na producção do famoso meia. Mas o que importa mais para Peracio, não é o preparo physico. A prova está em que reappareceu quasi sem treino. Apesar disso se agigantou e justamente no segundo tempo, quando se devia mais sentir a influencia do cansaço. A verdade é que Peracio fazia questão de jogar bem. Ultimamente chegou-se a falar em declínio. Não havia motivo de nenhuma espécie para que um crack jovem, com as qualidades de Peracio, declinasse. Mas Peracio soffreria uma intervenção cirúrgica e um medico pessimista deu um prognostico severo. Peracio poderia jogar football. Não se pensasse, porém, que reproduziria as performances da "Copa do Mundo". O reapparecimento de Peracio foi um desmentido formal a toda a insinuação de decadência. E houve, Inclusive, um detalhe impressionante: Peracio principiou o matche discretamente. Só produziu uma grande actuação no período final, quando se venceu a si mesmo, apparecendo como uma das maiores figuras da cancha.
É preciso, porem, que se diga uma coisa. O Botafogo continuava a confiar em Peracio. O crack terminara o contacto a 29 de agosto e houve quem antecipasse a resistencia do Botafogo e relação a qualquer reforma de compromisso. Peracio aliás, interpretou as insinuações ao pé da letra. Um belo dia desaparecia da sede do Botafogo, sendo dado como "fugido". Adiantou-se que voltara para Vílla Nova, cumprindo a ameaça tantas repetidas. O Botafogo então trocaria um mineiro por outro mineiro, afinal de contas o que o Botafogo pretendia outra coisa. Queria Geninho, mas também queria Peracio, quando Peracio se convenceu de que Botafogo ainda acreditava nelle ficou realmente comovido. Alli reaffirmou que se não renovasse o contrato com o Botafogo regressaria para a montanha e não aceitaria proposta de nenhum outro club. Todas as difficuldades desapparecceram de golpe. Imediatamente surgiu um pape! e Peracio rabiscando o nome suspirando de allivio logo depois. Não prometeu mudar. Prometteu, sim, ser o mesmo. E quando disia “mesmo" se referia a "Copa do Mundo", aquela phase magnífica do segundo turno do campeonato de 39. Reappareceria contra o Fluminense para cumprir promessa. Era uma questão de honra jogarem. Queria mostrar que Peracio não decaira e que falta ainda muito para Peracio decair. De inicio fez jus a uma gratificação especial. Porque Peracio tem mi um tento em cada boa actuacâo, isto é, cada vez que seja "o mesmo". E o curioso é que Peracio sabe quando é "o mesmo". Em taes dias sente completamente.
Tem agora mais um anno de contrato pelo Botafogo, mas desde já annuncia que ficará outro anno e mais outro. Não sabe discutir condições. E para que discutir condições se só jogará se quizer? Ninguém imagina sequer que Peracio actua por exigencia de um contrato. O contrato é o de menos. Realmente lhe garante bem estar. Deu-lhe, uma vez, um Packard, mas todos foram unanimes em vislumbrar na compra de um carro luxuoso um indicio de loucura. Peracio jogava football, afinal de contas, para sustentar um carro e nem sempre chegava. Um dia largou o Packard e principiou a andar a pé Ia de um extremo a outro sem se alterar. Queria, em summa, divertir-se. Para Peracio a vida em uma grande cidade exige gargalhadas constantes. "Ou estou alegre ou estou triste. Não sei ser grave nem austero. Isso fica bem para os outros, para os que não são jogadores de football. Eu reconheço que preciso divertir a multidão, que a multidão pagou para emocionar-se, para vibrar, para experimentar qualquer espécie de sensação forte que valha cinco e quinhentos. Se eu sei disso para que adaptar um ar assim de conselheiro de Estado? Prefiro soltar uma gargalhada. Só fico sério dentro de campo. Ah! Tenho de fazer um goal...
Fonte: Jornal O Globo nº A00108 de 13 de setembro de 1940
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0 PARANÁ TAMBÉM FORNECE JOGADORES
Tadique ponta direita do Botafogo F.C.
Numa época em que Minas Geraes se realça como centro fornecedor de cracks de football para os outros Estados, é opportuno este flagrante, demonstrativo de que também o Paraná é um bom fornecedor de cracks. Nelle vêem-se Tadique, ponta direita do Botafogo, Cecilio meia esquerda do America, e Thadeu, goleiro dos rubros, todos os três nascidos na sympathica terra dos pinheiraes, que nos deu anteriormente Rey Gabardo, Carnieri e outros mais.
Fonte: Jornal O Globo nº 110 de 27 de setembro de 1940
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Aymoré, Graham Bell e Araraquara
Fonte: Jornal O Globo nº 111 de 01 de setembro de 1940
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TORNEIO RIO-SÃO PAULO NO STADIUM DO PACAEMBU
O primeiro turno do torneio Rio São Paulo terminou bom na capital bandeirante com a partida que Palestra Itália e o Botafogo F. C. disputaram. A peleja foi das melhores a que temos assistido no torneio interestadual. Tanto um como outro quadro souberam apresentar a combatividade necessária para tornar bella a pugna, querendo um sobrepujar o outro no melhor espirito de luta, tanto disciplinar como technicamente. O empate de 4 a 4 registrado mostra nitidamente o que dizemos e elle foi justo para qualquer dos bandos em luta. Não houve por parte de nenhum dos contendores domínio, pois quando um atacava, o outro logo respondia também com um ataque. É verdade que em algumas occasiões os locaes forçaram bastante, mas mesmo ahi não houve dominio, propriamente dito.
O team alvi-negro teve seu arco guardado por Clodô, que não fez nenhuma defesa que o recommendasse. Esteve mesmo fraquiasimo o ex-arqueiro do S. P. R. Carnera e Junqueira voltaram a formar a zaga palestrina e estiveram bons. O trio intermediário foi no "onze" do Parque Antarctica a peça menos efliciente do team. Carlos anodou descontrolado, como sempre lhe acontece. Sydney não esteve bem, mas produziu alguma cousa. Garro foi o melhor do seu compartimento. Na vanguarda residiu a peça mais saliente do conjunto. Luizinho foi um ponteiro direito realizador. Canhoto optimo preparador. Elyseo foi o mais negativo sem ter sido mau. Lima, o "dynamo", como o chamou o nosso companheiro Enio Perillo foi o melhor do ataque etambém o melhor do quadro. Elle é o "pequeno-grande" jogador do Palestra Itália. Echovarrieta jogou melhor no centro do que na ponta esquerda. Pipi, que entrou no logar de Echevarriota, deu mais velocidade ao seu sector. Aymoré, no Botafogo, foi um optimo guarda-meta. O mano de Zezó Moreira fez boas defesas. Bibi foi o melhor homem da retaguarda do "Glorioso". Nariz portou-se bem. Zezé Procopio o Canalli estiveram melhores que os halves palestrinos. Zezé Moreira foi o peor do seu quadro. Foi feliz por ter quem o ajudasse... Como no Palestra, também no Botafogo o ataque foi o melhor compartimento do conjunto. Tadique na ponta direita esteve regular. Geninho foi o melhor avante. Paschoal actuou bem, tendo conseguido por fim acertar em São Paulo. Peracio secundou seu conterrâneo Geninho. Deu mostras de estar em boa forma. Patesko no mesmo plano que Tadique. Araraquara foi um bom zagueiro quando substituiu o dr. Álvaro Lopes Cansado, o popular Nariz dos campos de foot-ball. As 21,10 horas, o Palestra dá a sahida. Quando eram decorridos 11 minutos, num contra-ataque, o Botafogo consigna o seu primeiro ponto por intermédio de Patesko, que recebeu muito bem de Tadique. Clodô defendeu mas deixou a bola escapar. Revesam-se os ataques o no 21º minuto o quadro guanabarino volta a marcar com um shoot de Geninho, que combinou com seu companheiro de ala. Foi um tiro violento. 2x0 pró Botafogo é o score. O Palestra força querendo marcar, e ao 27º minuto registra-se um arremesso lateral esquerdo, a bola vae ter a Sydney que entrega a Luizinho que pára e atira marcando. 2x1, A torcida applaude o feito do ponteiro direito. Aos 35 minutos Aymore faz optima defesa de um balaço de Echevarrieta. Sem outro resultado termina o primeiro periodo favorável ao club de Nariz. Inicia-se o segundo periodo e no 3º minuto Paschoal augmenta o score para o seu quadro, fazendo o melhor tento da noite ao receber de Canalli. No 7º minuto Canhoto dispara fortemente, mas a bola bate na trave. Aos 8 minutos Echevarrieta marca o segundo goal para o sou bando aproveitando uma bola alta. São decorridos 12 minutos e Peracio shoota nas traves tambem. São passados 19 minutos e Luizinho volta a marcar empatando a partida ao aproveitar um passe de Canhoto, que enganou Canalli. 21 minutos e há uma confusão na área do Botafogo. No 22º minuto Elyseo atira para fora perdendo optima opportunidade. Aos 27 minutos Bibi falha e Echevarrieta atira, mas Aymoré faz notável defesa. Tadique marca mais um tento para o seu quadro aos 28 minutos com um tiro de longe. São 4 a 3 para o "Glorioso". Aos 30 minutos entra Pipi para o posto de Echevarrieta e este vae para o posto de Elyseo, que se retira do gramado. Boa modificação. No 32º minuto o Botafogo faz entrar Araraquara para o logar de Nariz. Por fim o score é encerrado no 33º minuto por Echevarrieta ao receber um passe da direita. Está empatada a partida e 4 a 4 é o resultado justo.Com ataques de ambos os lados vem terminar a pugna que não teve vencedor nem vencido. Os quadros eram os seguintes: BOTAFOCO — Aymoré; Bibi e Nariz (Araraquara); Zezé Procopio, Zezé Moreira e Canalli; Tadique, Geninho, Paschoal, Peracio o Patesko. PALESTRA -- Clodô; Carnera e Junqueira; Carlos, Sydney e Garro; Luizinho, Canhoto, Elyseo (Echovarrieta), Lima e EchevarrieIa (Pipi). Dirigiu a partida o sr. José Ferreira Lemos (Jucá), da entidade dirigente do foot-ball carioca. A renda foi de 23:221$000. Se não fosse o mau tempo teria sido maior. A preliminar foi disputada entre os juvenis do Palestra Itália e do São Paulo F.C. Venceu o Palestra por 3 a 2.
Fonte: Jornal Sport Illustrado nº 128 de 19 de setembro de 1940
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Seria curioso recorrer ás velhas collecções dos jornaes cariocas, na parte sportiva, para se constatar a influencia do vento nas pelejas tradicionaes do nosso foot-hall. Temos a impressão de que o vento que soprava antigamente era mais piedoso senão mais brando e mais camarada. Pelo menos não se encontra nelle desculpas para as performances falhas nas equipes perdedoras no placard. Hoje em dia o profissionalismo, dentre outras innovações, creou a lenda em torno do vento. É constante ouvir-se de technicos e jogadores a solemne justificativa sobre a influencia do vento nos seus revezes. Ainda recentemente o vento provocou uma crise interna no Vasco da Gama. E a influencia do factor vento se alastrou de tal maneira que até os críticos da moderna geração empenham-se em dedicar capítulos inteiros das suas chronicas á historia dos ventos. Nós preferimos esquecer sempre nos nossos relatos a imposição dos phenomenos atmosphericos no desfecho das partidas de foot-ball. Não vamos ao exaggero de deixar de registrar a presença do vento; entretanto, não salientamos como commumente se observa que o vento modificou inteiramente o panorama de determinado jogo, tirando-lhe o sabor technico e roubando o enthusiasmo que deveria predominar entre os players litigantes.
Essa responsabilidade que se atira sobre o vento, para justificar uma série de partidas pobremente disputadas, representa, em certas circumstancias, bondade extrema dos seus observadores, e em outras falta de coragem para pintar com rabiscos de verdade o que de facto se passou em campo. Foi o desfecho da luta entre Botafogo e America, realizada no domingo, 22, que nos levou a evocar a influencia do vento nos matches de foot-ball. Conformado com a derrota do seu club, um associado de prestigio do Botafogo nos declarou: "Você viu como o vento só prejudicou o Botafogo? Tão forte soprou que, além de nos levar a victoria, carregou na sua voragem a faixa de annuncios que rodeia o campo provocando um desagradável accidente nas archibancadas". Não era possível discordar do cavalheiro amigo, deante de tanta convicção depositada nas suas palavras. Chegamos até a considerar o vento impiedoso demais para os alvi-negros e fértil em amabilidades para com os americanos victoriosos. . .

E assim esta lenda sobre a força do vento tornou-se motivo para se desculpar as mais surprehendentes derrotas, tal como esta que o Botafogo soffreu frente aos rapazes da jaqueta rubra. Como vemos, até a torcida ficou contagiada de forma que, se durante um jogo o vento começa a soprar, desapparecem as razões superiores que conduzem, na verdade, este ou aquelle quadro á derrota. Numa analyse segura sobre o que se viu em Wenceslau Braz o vento não levou apenas o panno de reclame que rodeiava o aprazivel stadium dos alvi-negros. Levou, também, as boas impressões que o quadro de Pimenta havia deixado após o seu cotejo frente ao leader do campeonato. Levou a harmonia do conjunto evidenciada naquela tarde do empate; levou tambem o espirito de luta e animo maior dos jogadores botafoguenses. E, se levou de facto, levou para bem longe. . . Porque 15 dias depois o quadro de Pimenta não era a sombra daquelle que enfrentou galhardamente o Fluminense F. C. Seria opportuno dizer-se deante da victoria merecida do America sobre o Botafogo, que o "vento levou" para Campos Salles um pouco de coragem e efficiencia, e ajudou o club rubro a vencer nitidamente, muito embora, num gesto de perversidade, soprasse contra durante todo o primeiro tempo e parte do segundo. Verifica-se, assim, que o Botafogo, mais protegido, não soube tirar partido desta inconstância das correntes atmosphericas. Ao contrario, levou sempre desvantagem no commando technico da partida, o qual coube, sem duvida, aos da camiseta rubra.
Dizendo em synthese mais clara o que se observou em Wenceslau Braz, o America construiu o seu triumpho lutando contra a forca do vento, dahi se concluir que a derrota do Botafogo surgiu em conseqüência de outros factores, que estudaremos mais adeante. A producção do team do Botafogo foi em conjunto negativa, mesmo no momento da reacção que teve a compensação de um empate pelo espaço infimo de 40 segundos. Inicialmente, a zaga foi a linha compromettedora do team. Bibi e Nariz pareceram dois jogadores bisonhos, principalmente o segundo, que, além de actuar mal, forneceu margem a que o America pelo seu flanco abrisse e encerrasse a contagem. No trio intermediario apenas Zezé Procopio convenceu, emquanto Zezé Moreira teve bons momentos no primeiro tempo, para decahir sensivelmente no periodo final. Zarcy não foi o mesmo homem útil do match contra o Fluminense. Cuidou em demasia do auxilio á frente, desprezando inexplicavelmente o serviço de vigilância sobre a ala Placido-Nelsinho, a que as contigencias de jogo obrigava. A vanguarda, com Peracio nullo, Tadique e Paschoal numa tarde de incrivel infelicidade, foi mesmo assim, aggressiva. Todavia, a maneira de investir desarticulada dos cinco homens não resultou de molde a reflectir no placard e nem tão pouco influiu para comprometter a solida defesa americana. Os leitores por certo extranharão não falarmos em Aymore, Geninho e Patesko. Justamente reservamos um capitulo á parte para o player montanhez, o calouro da equipe botafoguense. Sobre o arqueiro, diremos que o seu trabalho foi relativo, deixando passar tres bolas indefensáveis. O ponteiro esquerdo viveu isolado durante os oitenta minutos, e quando foi lembrado pelos seus companheiros agiu com a habitual malícia e efficiencia. Geninho é um player novato, cuja permanência no Rio não attingiu a um mez. Estreou, após um único treino de conjunto, contra o Fluminense numa peleja de grande responsabilidade e perante uma assistência numerosissima e extranha. Fel-o com successo, mostrando ser um jogador de raras virtudes, calmo, consciente, hábil arrematador, incansavel no trabalho constructivo e sobretudo provou ser .um conhecedor profundo de sua posição. Portanto, o Botafogo não poderia querer melhor. Tinha conquistado um elemento valioso, faltando-lhe apenas ambiente para se firmar definitivamente. O nome de Geninho mereceu justas e merecidas referencias, e o seu creador, o technico Pimenta foi vivamente cumprimentado pela exhibicão do pupillo montanhez. Passaram-se quinze dias e Geninho reappareceu contra o America. O mesmo jogador calmo, vivo ao mesmo tempo, jogando para o team com a preoecupação máxima de organizar e construir jogadas magnificas. Entretanto, a seqüência da luta mostrou que o team em que Geninho estava actuando não era o mesmo da estréa. Faltava tudo, inclusive disposição e articulação de linhas. E ainda por circumstancias inexplicáveis Geninho era o alvo dos seus companheiros. A elle eram dirigidos todos os passes. Cabia-lhe a funcção do eixo, do médio, do atacante e do artilheiro. . . Naturalmente não era possível fazer tudo certo, com precisão absoluta. Teria que falhar algumas vezes, como falhou. Entretanto, para surpreza geral, Geninho foi victima de uma vaia dos seus afficcionados. Exaltaram-se porque Geninho perdeu duas ou três bolas das centenas que recebeu. Não viram os apaixonados botafoguenses Peracio rodar feito um pião em campo, desperdiçando tudo e irritando pela displicencia. Não observaram Nariz fracassar lamentavelmente e o team agir desarticulado permittindo á defesa americana actuar com toda a segurança e o seu ataque se infiltrar facilmente pela vanguarda alvi-negra. Não viram nada. Apenas Geninho sobrecarregado errando algumas vezes, mais pelo desejo de fazer tudo certo. Todavia, ainda victima de injustiças, foi o player mineiro que livrou o seu quadro de um revés fragoroso, marcando dois bellos tentos depois de um dispendio extraordinario de energias. Foi Geninho, a nosso ver, o elemento mais útil do Botafogo depois de Zezé Procopio, pois dividiu exclusivamente com o half direito todo o enthusiasmo, toda a vontade de vencer que se deveria ter espalhado pelos demais componentes da equipe alvi-negra. Foi muito injusto o quadro social do Botafogo — repetimos — pois mesmo que tivesse uma actuação fraca, Geninho merecia desculpas, uma vez que lhe falta ambiente para exhibir todas as suas virtudes, e ainda lhe faltou o apoio inprescindivel dos demais companheiros, especialmente de Tadique, Paschoal e Peracio, que o deixaram isolado. O America venceu bem o match. O seu quadro não apresentou uma conducta technica exemplar mas agiu de forma a tirar partido da irreconhecível performance da zaga adversaria, onde Bibi e Nariz andaram ás tontas. . . Não contou para isso com um ataque harmonioso e impulsivo, mas trabalhou a contento. Entretanto, justo se torna resaltar que na segurança do seu triângulo final e na regularidade da linha intermediária residiu o segredo de sua magnifica victoria. Thadeu, excellente; Gritta e Dela Torre, optimos; Aziz, discreto; Alcebiades, Bolinha e Dedão, bons de um modo geral. No ataque, como dissemos, no mesmo nivel, tiveram os rubros em Nelsinho e Plácido os seus principaes collaboradores. Cabe, por fim, um registro á expressão da victoria americana. É que justamente ella parece que vale como a repetição de uma historia curiosa. Todos os annos, a partir de 1937, o America inicia a sua arrancada quando as posições do campeonato já estão quasi definidas. Ahi, então, os diabos rubros passam a ser um espantalho, desmanchando projectos e reagindo de forma a collocar o nome do tradicional club no logar que as suas glorias tanto fazem por merecer. O placard da partida (3x2) foi construído da seguinte forma: 1x0 para os rubros, no primeiro tempo; goal de Cecilio ao aproveitar uma jogada hábil de Nelsinho, que passou como quiz por Zarcy e Nariz. O empate nasceu por intermédio de Geninho, emendando uma rebatida fraca de Dela Torre, depois de um trabalho útil de Patesko. Durou, porém, 40 segundos o empate, porque Plácido fez o segundo tento rubro no seu estyIo próprio. A seguir Nelsinho marcou o terceiro, por descuido lamentável de Nariz e Bibi. Geninho diminuiu o placard, encerrando-o com um arremesso fulminante que mereceu applausos enthusiasticos até da própria torcida americana. Fioravante D'Angelo conduziu-se muito bem, contando com a disciplina e o cavalheirismo dos jogadores para levar a cabo a sua missão. Os quadros agiram assim constituídos: AMERICA — Thadeu; Dela Torre e Gritta; Dedão, Aziz e Alcebiades (Bolinha); Nelsinho, Plácido, Fogueira, Cecilio e Pirica. BOTAFOGO — Aymoré; Bibi e Nariz; Zezé Procopio, Zezé Moreira e Zarcy; Tadique, Geninho, Paschoal (Carvalho Leite), Perácio e Patesko.
Fonte: Jornal Sport Illustrado nº 129 de 03 de outubro de 1940
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Vista lateral Palacete Venceslau Bras
Iniciamos no nosso numero anterior a serie de reportagens promettidas sobre aspectos íntimos dos grandes clubs sportivos da cidade. O objectivo de SPORT ILLUSTRADO é transportar, em miniatura, pára as suas paginas estes scenarios de belleza ineguavel, que crêscem e se agigantam dia o dia, graças aos sacrifícios de uma actividade intensa dos seus orientadores. No nosso trabalho de divulgação illustrada não vae um elogio extensivo apenas aos que hoje orientam os clubs da cidade. Não.
Sala a direita do palaceta da Venceslau Bras
Cada photo symbolisa todas as épocas vividas pelos clubs desde a fundação até a actualidade. Os timoneiros de hoje defendem um patrimônio creado pelos seus. antecessores, formando no conceito do publico sportivo um nome já glorificado.
Foto a esquerda carramachão no terraco do palacete. Foto a direita quadra esportiva
O que se tornaria porem difíicil a nossa revista era fazer um histórico sobre os clubs grandes da cidade, com a citação de factos e nomes do passado. Dahi a iniciativa de recordar através das gravuras a acção constructora dos que já zelaram pelos destinos das referidas aggremiações. Aqui está por exemplo synthetizado numa magnífica reportagem o Botafogo F.C.
Foto a esquerda vista da varanda saindo do salão nobre
Um club que se impõe imperativamente aos olhos de todos nós pelas suas glorias conquistadas no terreno sportivo e pela sumptuosidade do seu patrimônio material. Os principios nobres que crearam o Botafogo inspiravam os seus homens o agir dentro de uma mesma linha de conducta. Escudo do Botafogo F.C. na entrada da sede de Venceslau Bras
O Botafogo é uma realidade dentro da vida sportiva da cidade, incentiva a pratica do verdadeiro sport com a real comprehensão dos seus objectivos. Cultiva o physico da mocidade alvi-negra como principio de eugenia. Diffunde o foot-ball, tennis, basket, volly, esgrima e o athletismo, no intento de cumprir integralmente os seus desígnios.
Foto a esquerda varanda com vista para a rua. Foto a direita tunel sob as escadarias de acesso ao pátio interno
A mulher botafoguense sente também a significação do seu club. Leva ás reuniões sociaes toda a graça e belleza de que é possuidora e sente a necessidade de fazer o sport para manter a flexibilidade e a desenvoltura dos seus movimentos. O Botafogo de hoje pode se chamar o Botafogo de João Lyra Filho.
Campo Gal. Severiano com vista das arquibancadas
Disciplinado, cultivando melhor a espiritualidade e enfeitado de maiores encantos. Os verdadeiros clubs devem ser como é o Botafogo. Centro de reunião privilegiados a cordialidade. E nisso o grêmio alvi-negro tem uma acção meritória.
Foto das quadras de tenis
Outra foto das quadras de tenis
Eis o que nos suggere a nossa objectiva após fixar os recantos pittorescos de Wenceslau Braz numa manhã pomposa de luz. A intensa vibração, a fidalguia, o dynamismo sportivo e a simplicidade colonial das dependências do glorioso club, deixavam no nosso espirito a impressão de sincero deslumbramento, que a nossa objectiva transporta para as paginas de SPORT ILLUSTRADO.
Outra foto do Dep. Médico

Concentração dos jogadores sob as sociais do estádio de Gal. Severiano

Fonte: Jornal Sport Illustrado nº 131 de 10 de outubro de 1940
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O Botafogo heroe de uma noitada sensacional
Equipe do C.R. Vasco da Gama
Botafogo 48 x 37 C.R. Vasco da Gama
O actual Campeonato Official de Basket-bal! segue seu transcurso normal, sob a direcção da Liga Carioca desse sport, tomando os jogos das rodadas agora em foco a mais destacada importamcia, dada a influencia que qualquer um dos jogos começa a revelar para a dança decisiva da tabelia, que em ultima analyse indicará o campeão da temporada de 1940.
Jogador do Botafogo F.C. assinando a súmula do jogo
Jogador do C.R. Vasco da Gama assinando tambem a súmula do jogo
Esse titulo que, a rigor, parecia vir a pertencer ao Vasco da Gama, não só pelo valor da sua equipe como principalmente pela série successiva de victorias em campo, sofreu repentinamente um baque quando a equipe do Riachuelo lhe impoz a primeira derrota, arrebatando-lhe o titulo de invicto. Emquanto isso o Botafogo F. C. também progredia e passava a revelar-se capaz de se firmar como pioneiro da tabella.
Lances da partida
Assim três gremios se categorizavam em classe para a conquista do titulo — Vasco, Riachuelo e Botafogo F. C. A semana finda offereceu o sensacional encontro entre os vascainos e alvi-negros, e esses, repetindo o feito dos riachuelenses, impingiram nova derrota ao quadro de Guilherme, dessa feita, porém, com imprevista e esmagadora superioridade, já que terminou o match com o score de 48 x 37, isto é, com uma differença de 11 pontos para o Botafogo vencedor. Esse resultado, porém, não afastou o Vasco do direito de ainda se fazer detentor do título, pois em perdendo 2 pontos não deixou por isso de continuar a frente da tabela, embora agora tenha na mesma situação o grêmio que o levou de vencida. O Botafogo, pois, passou a desfructar o mesmo direito de se julgar capaz de terminar o certâmen como campeão da temporada de 1940, tanto mais que o seu quadro possue tanta classe quanto os que mais o tenham no presente momento do Campeonato. Os jogos futuros, porém, poderão acarretar surpreza aos dois ponteiros actuaes, já que o actual Campeonato admitte para vários dos participantes, além de um equilíbrio de força, as mesmas possibilidades de victorias e derrotas. Público assitindo ao jogo Essa faceta do certamen só pode agradar, já que por isso mesmo se vae o certamen tornando mais vivo e interessante do jogo para jogo, permitindo, consequentemente, um mundo de conjecturas o de surprezao, o que traz para os fans do basket uma particular disposíção de seguir, de corpo presente, os principaes prelios da rodada official. E a razão do interesse publico se reside na clase do jogo, tambem existe na consciência de se achar mais de um club em condições de, vencendo um jogo forte, perder o immediato, complicando mais ainda a decisão do Campeonato.
Fonte: Jornal Sport Illustrado nº 133 de 24 de outubro de 1940
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UM CRACK POR SEMANA
Carlos Carvalho Leite
O forward do Botafogo nasceu em Petropolis e conta presentemente 28 annos. Seu ingresso no grêmio da avenida Wenceslao Braz verificou-se em 1932, uma época que não deixa de possuir especial significação para os que sympathizaram e lutam em prol do engrandecimento do club de Mimi Sodre. Surgiu juntamente com Martim oriundos ambos do esforço e da tenacidade desse alvi-negro batalhador que se chama Carlos Martin da Rocha. Em 32, Carlito tinha apenas 20 annos. Começou bem porquanto sagrou-se no fim da temporada, campeão carioca e brasileiro. No Rio não vestiu outra camisa senão a do “Glorioso". Mesmo durante a scisão dos sports, soube se manter fiel a causa botafoguense. Formou com o "velho" Nilo uma dupla irremovível. Anualmente joga e estuda devendo colar grao em medicina este anno, pela Universidade do Rio de Janeiro.
Fonte: Jornal O Globo nº 114 de 25 de outubro de 1940
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Um crack por semana
ARMANDO GRAHAM BELL
O full-back do Botafogo iniciou sua carreira sportiva no Uruguay, onde defendeu, primeiro, agremiações pequenas do interior. Posteriormente, appareceu em Montevidéo, e na capital cisplatina actuou por mais de duas temporadas nas fileiras do Wanderers Club. Sua actividade no esquadrão oriental variou da reserva ao team principal. Foi, porem, mais um supplente, do que titular. Cruzou as fronteiras em fins de 37, e no Rio Grande alcançou amplo successo. O Botafogo arregimentou-o em 39, e suas performances no "onze" alvi-negro significaram a chave para a conquista de um titulo. A obtenção do campeonato deixou de se positivar em face da contusão que, o collocou á margem das atividades. Armando Graham Bell nasceu no Uruguay e conta, presentemente com 26 anos.
Fonte: Jornal O Globo nº 118 de 22 de novembro de 1940.
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A salvação de Perácio está na penitência dos erros...
Certa vez, sim, eu me lembro bom, foi uma segunda-feira pela manhã, elle appareceu na sede do club com ares de doutor. Olhou-nos com certo desprezo, apontando para a porta da rua onde um carro de linhas ultra-modernas acabava de ser freiado. — Vejam só que automóvel "bacana" acabo de comprar... E desde então ninguém mais soube compreende-lo. Nem elle a si mesmo. A decadência de Peracio começou realmente com aquella compra esquisita. Não se sabe bem conto um modesto provinciano, com apenas alguns meses de estada no Rio de Janeiro, pensasse, assim, tão rapidamente em coisas tão complicadas. Mormente quando se percebia aquelle modestíssimo rapaz de Nova Lima não havia, até então, tornado patente o fogo fátuo de uma propaganda rebuscada quasi que exclusivamente em hypotheses. De qualquer maneira, porém, o que aconteceu foi simplesmente deplorável. E mais deplorável ainda quando se conclue que o crack mineiro se perdeu pelo excesso de mimo. Foi a criança grande, para cujos erros houve sempre um gesto de complacencia e um doce sorriso de indulgencia Era o unico que regressava ao club fora da hora; o único que treinava quando queria e lambem o único que percebia o prêmio extra de um conto de réis por goal.
Em outro centro profissionalista a narrativa desta historia saberia o exaggero como deveria saber também, não só exaggero como a calunnia a lenda de uma sua viagem a Minas, onde sua mãe extremosa jazia num leito de morte, fria, fria, á espera do filho querido para a eterna despedida.
Peracio, pelo menos embarcara em um avião rumo a Bello Horizonte, allegando este motivo.
E diga-se de passagem, autorgado pelo Glorioso. Levando o consentimento e as condolência do presidente lyra Filho.
Mas tempos depois o crack se revolta por questiunculas de somenos importância. Nega se a tomar parte nos exercicios a jogar; quebrando todas as cláusulas de seu contrato. Fazia "ouvidos de mercador" nos mais úteis conselhos, preferindo em da regeneração commoda e utilitaria palmilhar o mesmo caminho, a estrada que o conduzia á desmoralização.
E não satisfeito com todas essas desordens premeditadamente concertadas por terceiros, se lançou á aventura quixotesca do destrato publico, através de cartas incrivelmente bem redigidas (') contra o homem que tentou demovel-o das acções impensadas. Inadvertidamente, porém, José Peracio commetteu uma "gaffe” imperdoável quando esquecendo a historia do desapparecimenlo de sua genitora; das razões daquella viagem de avião a Minas fez constar do libello formulado contra o presidente de seu club que '"ainda" é arrimo de mãe. ...
É preciso ouvir entretanto, que nem tudo está perdido. Peracio que se collocou numa posição delicada diante da directoria do Botafogo, ainda pôde remediar parte do desastroso engano. Como, remedíal-o ? Manda obom senso e explica a mathematica que a linha recta é sempre o caminho mais curto entre dois pontos. Naturalmente que as estradas sinuosas são exhaustívas, e o cansaço enfada e desorienta o viandante. Não resta duvida que elle já se deve sentir conturbado, esgotado e arrependido de tudo. E que a criancice é limitada e os annos correm, correm... Bastou que se ocultasse um pouco para que o publico esquecesse lodo aquelle turbilhão de noticias de shoote estrondosos. Os anos não passam em vão e a gloria de um crack; só tem a duração de um dia. E já que os minutos passam tão celeremente, por que não voltar? Confessar-se culpado de um erro é tão dificil quanto commettel-o. Ademais significa no máximo uma tentativa. Quem sabe se não há ouvidos a espera da confissão e boa vontade em attendel-a?
Heleno de Freitas, Carvalho Leite e Geninho
Fonte: Jornal O Globo nº 119 de 29 de novembro de 1940
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O BOTAFOGO APRESENTARA UMA EQUIPE QUASI QUE INTEGRALMENTE MODIFÍCADA EM 1941
APESAR dos pesares, algo de bom evidenciou o football carioca em 1940. Uma das coisas por exemplo, que mais preoccuparam os dirigentes dos nossos clubs foi a renovação de valores. Poucos, muito poucos — talvez um ou dois — se descuraram desse detalhe. A maioria, portanto,
Pode-se ufanar perfeitamente de haver cerrado
fileiras em torno de uma iniciativa tão importante. Mas, dentre os propugnadores para a adopção da medida, occupa o Botafogo um posto de invejável destaque. A entidade presidida pelo Sr. João Lyra Filho, foi, entre suas congêneres, a que maior actividade desenvolveu nesse sentido. E ahi estão como provas testemunhaes do carinho e da perseverança alvi-negra alguma “promessas” que estão paulatinamente se transformando na mais alegre das realidades. Primeiramente um Brandão, depois um Geninho, que são evidentemente as "pedras de toque" da formidável tentativa em prol da "alvorada dos novos".
Isto significa que o Botafogo comprehendeu mais do que qualquer outro club a sua missão para com o desporto nacional. Não, naturalmente com as finas mencionadas aquisições mas sobretudo e principalmente, em
fase do que se procurou fazer com os outros "cracks" cuja approvação technica há muito porque esperar.
UM TEAM INTEIRAMENTE NOVO PARA 1941
É fácil distinguir os projectos do "Glorioso" para a temporada de 1941. As provas dos esforços desenvolvidos em torno da busca incessante de jogadores novos são exuberantes. A iniciativa cheira, por isso mesmo á revolução, e suas características se baseam no principio evolucionista "do que é nosso, para o que é nosso." Poucos podem perceber, comtudo que se trata de um gesto impulsivo e que, do seu maior ou menor resultado advirão grandes e pequenas satisfações.
O presidente João Lyra não se mostra ousado quando faz desfilar através de calculo meditados o que será o Botafogo do próximo torneio. Tão pouco se atemoriza em face de possíveis fracassos das primeiras exibições da equipe. Evidentemente, um quadro para "acertar" necessita de muito trabalho conjuntivo, e isso a começar pelas chamadas representações integradas por celebradas figuras. O operoso dirigente do alvinegro accentua que tudo se faz a base de sacrifícios, de methòdo e disciplina, e que serão estas forças que conduzirão o campeão de 30 a um logar de destaque no concerto dos "leaders" da
technica do " association" guanabarino.
A excursão ao México servirá como um "test" para o certamen próximo, e, a exceção de três ou quatro players, os demais deverão arcar com a responsabilidade de defender o prestigio da entidade no campeonato vindouro.
A Brandão, por exemplo, caberá a incumbencia de zelar pelo arco. Na zaga formarão, possivelmente, Borges e Araraquara; a linha media contará com Laxixa e Procopio, restando
o problema do "pivot", que ainda faz parte de sérias preocupacões. O ataque apresentar-se-a
com Tadique na ponta, Geraldino na meia direita, Sardinha no centro, Geninho na meia esquerda e Patesko na extrema, assim, como se vê, apenas o "crack" paranaense, será, dentre os forwards veteranos, o que perdurara, e como ele, Procópio na linha dos halves.
Fonte: Jornal O Globo Sportivo nº 125 de 10 de janeiro de 1941
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Invencível o Botafogo no México.
BRILHANTE A JORNADA DO GRÊMIO ALVI-NEGRO NO PAÍZ DOS AZTECAS
Não se pode considerar o foot-ball pontuado no México como de grande projecção mundial. Todavia, tal conceito não vem em hypothese alguma offuscar a brilhante temporada do Botafogo na terra dos aztecas. Ao contrario, o rosário de victimas do quadro de Pimenta traduz uma conducta effícientissima, uma energia férrea e um espirito de lucta dignos de encomios. E bastaria dizer-se que o Estudiantes de La Plata em excursão longa pelo México não conseguiu realizar uma campanha tão expressiva em victorias como conseguiu o veterano club carioca. E poderíamos mesmo afirmar que se o Botafogo retarda a sua peleja contra o quadro argentino afim de se adaptar melhor ao clima e aos costumes do México, outro seria o resultado que não um simples empate de 1x1.
E depois deste ponto perdido, o Botafogo iniciou os seus encontros officiaes com os teams mexicanos derrotando lindamente o Hespanha por 7x4, o Jalisco por 3x2 e por fim se impoz como um heróe é selecção local pelo score de 2x0.
Não se deve fazer citações normaes em torno da conducta dos jogadores alvi-negros pois todos têm sabido corresponder plenamente á espectativa dos seus dirigentes e a exigencia do seu technico. Ainda não está terminada a temporada botafoguense no México e já a critica local nos chega ás mãos enaltecendo com justa razão a conducta do quadro brasileiro considerando-o o campeão do México. E esta legenda de "campeão do México" é a synthese do que foi até agora a campanha do Botafogo sob o sentido technico e disciplinar. Torna-se sobremaneira auspicioso registrar o feito dos nossos patrícios no México justamente nesta phase de fluctuação porque passa a alma footbollistica nacional.
Os triumphos arrancados em terra extranha têm nesta hora de indecisões um duplo valor e o Botafogo os soube arrancar em numero tão expressivo que chegam a nos fazer esquecer revezes amargos soffridos em outras plagas. Para os que confiavam muito pouco numa rehabilitação do nosso "soecer" os triumphos alvi-negros não valem como uma reparação total, mas deixam pelo menos antever que nem tudo está perdido e que ha tempo para uma reação.
Fonte: Jornal Sport Illustrado nº 153 de 13 de março de 1941
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Homenagem do Jornal A Manhã em 1942
Fonte: Livro Botafogo O Glorioso
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DE VICENZI voltou a brilhar no basket. O basketballer alví-negro é ainda um ás, tendo se destacado nos prelios de quarenta e três. O team do Botafogo ocupa a liderança do certame carioca, cujo final está sendo disputado no corrente ano. O Vasco, mais uma vez, é o adversário mais serio do "five" alvi-negro. Salvo surpresa nos segundos finais do match entre cruzmaltinos e botafoguenses, tudo indica que o Botafogo volte a ganhar o título máximo, conquistando assim o bi-campeonato. E De Vicenzi terá concorrido decisivamente para esta nova conquista.
O "CÉREBRO" DO "FIVE" BOTAFOGUENSE
O campeonato da Federação Metropolitana de Basketball vem oferecendo uma disputa emocionante. Basta dizer que o Botafogo de Football e Regatas é o lider um ponto apenas à frente do Vasco. Tal equilíbrio de forças tem exigido um esforço exhaustivo dos teams, em beneficio para o lado técnico dos matches. Para o sucesso da brilhante campanha do Botafogo de Football e Regatas, Raul de Vicenzi, figura destacada em varias jornadas internacionais, tem sido o principai colaborador. É ele apontado como o "cérebro" do "estrela solitária", tendo exibido na temporada de 1943 todos os recursos técnicos que o celebrizaram. Em 42 sua produção foi menor, e isso porque assumiu compromissos, como o tiro de guerra, que forçosamente vieram a prejudicar suas atividades esportivas.
Fonte: Jornal O Globo Esportivo de 07 de janeiro de 1944
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Santamaria.
Fonte: Jornal O Globo Esportivo de 04 de fevereiro de 1944
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O sucesso da "Prova Popular de Natação "A Noite"
Abel Ely Gazio (Botafogo) Eduardo Antonio Alijó (Fluminense) e Paulo Fonseca e Silva (Fluminense)
Já se tornou uma atração na vida esportiva da cidade a "Prova Popular de Natação", promovida pelos nossos brilhantes colegas de "A Noite". A competição deste ano alcançou o mesmo sucesso dos anos anteriores, servindo para estimular a prática do salutar esporte em nosso meio. Nada menos de três centenas de amadores, entre os quais diversos ases da nossa aquática participaram da prova, a qual vem consagrar um novo valor. Na verdade, Abel Ely Gazio, herói da competição, era completamente desconhecido e seu feito é tanto mais digno de registo quando se sabe que competiu com nadadores da classe de Paulo Fonseca e Silva, campeão sul-americano de nado de costas e Eduardo Alijo, atualmente nosso melhor nadador em longas distancias.
AS PRINCIPAIS CLASSIFICAÇÕES
O vencedor foi Abel Ely Gazio, representante do Botafogo, que completou o percurso de maneira destacada. O primeiro lugar na categoria feminina pertenceu a Marcilia de Albuquerque, do Fluminense. Como concorrente avulso, classificou-se em 1º lugar Francisco Barcelos Dias. Na categoria dos militares foi vencedor Leonidio dos Santos Amaral, pertencente ao Forte da Lage. Na classificação por equipe, sagrou-se vencedor o Fluminense, e o Vasco teve o título de equipe mais numerosa. Os dez primeiros colocados foram os seguintes: 1º Abel Ely Gazio, do Botafogo; 2º Paulo Fonseca e Silva, do Fluminense; 3º Eduardo Antônio Alijó, do Fluminense; 4º João Amadeu Conceição, do Vasco; 5º João Gentil Filho, do Fluminense; 6º João Marquês, do América F. C; 7º Armando Bandeira de Lima, do Fluminense; 8º Luiz Carlos Magalhães, do Tijuca; 9º Edison Peres, do Guanabara, 10º Pedro Afonso Mibiele do Fluminense.
Fonte: Jornal O Globo Esportivo nº 284 de 11 de fevereiro 1944
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FRANQUITO ?uma sensação
A OPINIÃO CATEGORIZADA DE ZEZE' MOREIRA SOBRE O TITULAR DA MEIA-DIREITA DOS BOTAFOGUENSES
Ainda nem Martin concluiu os preparativos e já se qualifica Franquito de titular? Ora, o Botafogo, mesmo, não tem a menor idéia da constituição da sua equipe, como pode ser Franquito titular? E mas apezar dos pezares, Franquito já é o titular da meia direita. Primeiro, porque ha dois anos o esquadrão alvi-negro luta por um bom elemento para o posto e, depois, porque esse bom elemento é Franquito. Meia dúzia de exibições desse crack dos pampas serviram para provar que não foram vãos os esforços do preparador Martin nem do grêmio de Bebianno no sentido do seu engajamento em Wenceslau Bras. Deve acabar — deve, não está acabado — uma das questões mais sérias da direção técnica. No campeonato passado, então, a ausencia de um bom elemento para a posição chegou a tomar feições de desastre para os botafoguenses. Todos os recursos, dentro dos disponíveis, foram tentados, e todos resultaram inúteis. Quase todos os atacantes foram esperimentados. Até Bolinha, um aspirante vindo do America F. C, teve uma oportunidade. Que o problema foi resolvido foi? Ninguém duvida disso, pelo menos os alvi-negros não duvidam. E a propósito, aqui vae uma palestra mantida com o veterano Zézé Moreira, assim com ares de entrevista, da qual foi Franquito a figura central. E o ex-pivot alvi-negro com essa solicitude e atenção que tanto cativam não se furtou a uma opinião formal. Então Zézé, você acha que Franquito é o tal ? Bem, que seja o tal é difícil, mas que será uma sensação no campeonato, é seguro. A minha opinião é personalíssima, é claro mas Franquito foi uma verdadeira descoberta para o Botafogo. Tem tudo que um jogador pode desejar e necessita para ser grande. Juventude, agilidade, manejo de bola, malícia, enfim... Franquito empolgará qualquer um, como nos tem empolgado nos treinos. É possivel que sobrevenha um inesperado qualquer. O nervosismo irreprimível de uma estreia, por exemplo. Temo-lo visto apenas com o campo vasio. E nós sabemos, sobejamente, o que representa uma assistência enchendo um campo de futebol. Mas acredito na sua classe. E Martin pôde confiar nele, como podem confiar todos os alví-negros. Franquito será, não apenas a solução de um problema do conjunto, mas uma autentica sensação para o campeonato carioca de 44. Aguardem e verão. E vamos seguir o conselho de Zézé Moreira quanto à promessa de Franquito, que vemos na gravura, entre Laranjeira e Luzitano.
Fonte: Jornal Sport Illustrado ano 6 numero 307 de 24 de fevereiro de 1944
Carlos Santamaria
Uma praia possivelmente, concorra para melhorar o teu joelho. "Eu fui a Mar del Plata. E não obtive melhora. De regresso alguém me falou de um remédio definitivo. "Qual é?. "Tens que operar-te, Santa. Opera-te o quanto antes. Pelo menos tirarás uma prova dos nove". Entre amedrontado e acovardado, decidi-me a chegar ao fim da jornada. Extraiam-me os meniscos". Um ano esteve Carlos Santamaria aguardando o momento de recomeçar. Tentou faze-lo algumas vezes, e na última teve que deixar o treino capengando. "Não era com atletas capengas que o River esperava tirar campeonatos". Assim surgiu Malazzo, o half da reserva, um jogador como muitos, mas como poucos também, pela regularidade. "Tocou a minha vez de chorar. Eu não concebia tamanho desaponto. Deixar Minella, deixar Barnabé, deixar Wergfiker, deixar o River, meu Deus, em plena mocidade". Naquele dia chorei de verdade. Longa e sinceramente. Não chegou a decorrer muito tempo, porem, e o Fluminense mandou apanhá-lo vencido em Buenos Aires. "Eu vim correndo louco por uma reabilitação. Obtive-a, aqui, graças ao sol de Copacabana. Este clima realizou o que todos os médicos acharam impossível. E a minha maior, ventura foi, depois de tudo ver que o River me mandava uma carta com dinheiro e instruções para uma fuga sensacional. Eu, besta, fugi vontade talves, de ir à forra... Quando retornei, o quadro era outro, o ambiente era outro, e o football também havia mudado. Nem Minella, nem Wergfiker, nem Barnabé. Fiquei sozinho entre novatos. E eles me derrotaram!".
O MEU SEGREDO ESTÁ NA NOÇÃO DE RESPONSA BILIDADE
Hoje, eu não posso dizer que seja um homem pobre. Não sou pobre porque guardei quase tudo. Como e durmo às custas do ordenado e dos prêmios, e guardo as "luvas". É isto que um crack deve fazer, e no Brasil a gente pode muito bem fazer Isso sem dificuldade. No Brasil a gente encontra amigos de verdade. Encontra jornalistas que nos fazem bem somente pelo prazer de fazer o bem, em troca de uma boa noticia. Somente uma boa noticia". Ai está uma parte do segredo das vitorias de Santamaria. É uma partícula do segredo de sua independência. "O resto é questão de ter noção de responsabilidade. Ser perseverante, ter sempre necessidade de fazer as coisas melhor, é outro detalhe importantíssimo na questão. E ter como arma principal, contra o "mau olhado", a confiança cega em nós mesmos. Vocês podem me achar abobado, ingênuo, criança. Devo ser tudo isto. E é isso, confesso, que faz com que eu tenha o pensamento sempre voltado para a vitoria. Ainda agora eu espero ser campeão rendo graças a Deus pela oportunidade de me fazer capitain do team do Botafogo. Para mim não pode haver maior demonstração de confiança — não me dispensaram, nunca, igual honra, nem mesmo na minha pátria, onde fui mais do que um crack, onde pese a modéstia fui um ídolo.
Fonte: Jornal O Globo Esportivo de 10 de março de 1944
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O Botafogo de 44 resgatou com juros uma velha dívida...
Artigas controla a bola enquanto Jaey marca Reginaldo
CLÁSSICO Flamengo e Botafogo, depois da cisão, já teve dois periodos. O primeiro, quando o alvi-negro vencia muito, teve a sua fama em verso e musica. Depois veio a segunda e os rubro-negros fartaram-se de marcar placards de quatro contra o glorioso. Ha três anos que assim acontece e há três anos que os adeptos do Botafogo esperavam pela "revanche". Era uma velha divida que merecia ser resgatada. Em 44, com a salda de Domingos do team Flamengo, acreditava-se que era chegado o momento. Acreditava-se, mas não muito... Todavia aconteceu. Seis vezes a bola foi às redes do Flamengo. seis vezes representando seis goals. A principio os alvi negros não quiseram crer. Como era possível tanto goal numa só 5 noite, quando eles haviam feito falta em menores parcelas em oportunidades outras. O team agia com absoluta segurança e amontoava tentos. Aos 2 minutos, Affonsinho conquistara o primeiro e Reginaldo o segundo, aos 4 minutos. Coube a Heleno duas vezes seguidas nos minutos 8º e 11º minutos fazer a contagem chegar a quatro a zero. Depois mais um goal de Reginaldo aos 18 minutos e outro de Affonsinho quando faltavam menos de tres minutos para o para final do 1º tempo. Os milhares, centenas de torcedores do Flamengo estarão tristes com o revés contundente. Ainda que na segunda fase houvesse uma diminuição da diferença, com os goals de Zizinho e Tião aos 20 e 23 minutos embora o Botafogo não tivesse aumentado o numero de tentos apesar dos elementos que faltavam a equipe. Nada disso servirá de consolo. Perdendo o macth deixou-se quebrar uma série que parecia não ter fim. Ficava com a derrota no match do Relâmpago, a derradeira “chance! do time freguês. Não adianta que Jurandyr, Biguá, Pirillo e Perácio estejam ausentes. Isso pode explicar o insucesso, mas não trará a vitoria. E para rebater o motivo o adversário aprsentará a razão da ausência de Laranjeira, Papetti, Geninho o e Franquito. Eles - dois quadros – faltaram quarta feira e não estão livres de ficar ausentes em outras oportunidades. Certo é que onze contra onze, com os elementos de que puderam lançar mão, os rubro-negros foram batidos amplamente. Haverá outras oportunidades. Os resultados daqui em diante, porem, não terão o poder de destruir o feito dos velhos e novos botafoguenses, irmanados no onze de 44. O Botafogo, com os seis a dois, resgatou com juros uma velha divida...
TEAMS, JUIZ E RENDA
Dirigiu o encontro o juiz Mario Viana, que teve ótima atuação. Os quadros eram estes:
FLAMENGO — Luiz (no 35º minuto da primeira fase, Doly, do team de juvenis); Artigas e Nilton, (no intervalo, Guàlter); Quirino (no intervalo Jacy), Bria e Jayme; Nilo, Zizinho, Djalma, Jacy (no intervalo Tião) e Vevé.
BOTAFOGO — Oswaldo: Hernandez e Lusitano; Zaroy, Santamaria e Negrinhâo; Affonsinho, Octavio (no segundo tempo Tovar), Heleno, Limoeiro e ReginaJdo. Renda —- CrS 100,287,00.
Domínio absoluto do Botafogo na primeira fase e equilíbrio no período final. Pontos altos das equipes: Santamaria, Negrinhão, Zarey os ponteiros e o comandante botafoguense; Zizinho, Jayme e Tião no Flamengo.
Fonte: Jornal O Globo Esportivo de 10 03 de 1944
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Encerrou-se com brilhantismo o primeiro turno do campeonato de basquete da cidade. Iniciado em 1º de agosto o certame ofereceu na ultima 6ª feira, dia 15, a rodada final de sua 1ª fase. E não há duvida de que o fez com um autentico “fecho de ouro”, que foi o choque Botafogo x Flamengo, por todos os títulos o maior do turno.
Guilherme e Marcos procurando livrar-se da marcação de Armando e Lenk
Maior porque decidiu a liderança; porque acusou a maior renda, porque ofereceu o desenrolar mais renhido e empolgante. O Botafogo vencendo o rubro-negro por 31 x 28 honrou suas credenciais de bi-campeão da cidade e terminou o turno, na liderança com ponto na frente do Flamengo e do Riachuelo, empatados. Os rubro-negros e os azuis foram aliás, as grandes surpresas, do campeonato. Enquanto o Botafogo apenas se esperava o dele se poderia esperar, diante dos inegáveis va\lores que o integram, Flamengo e o Riachuelo com dois teams quase que improvisados, marcaram feitos de grande expressão durante o desenvolvimento. O rubro-negro reuniu alguns elementos de Juiz de Fora, Helio Tiburcio, Helio Henrique e Jairo ao lado de veteranos como Adamo e Lenk e outros elementos esforçados mas sem cartaz como Armando o papai do Botafogo de Regatas e Joel e conseguiu formar que alertou os “fans” na sua quarta vitória no campeonato sobre o Fluminense, ganhou méritos consagratórios no triunfo sobre o Vasco e consolidou definitivamente esses méritos na luta duríssima que sustentou com o alvi-negro.
O Ríachuelo, perdendo Ruy de Freitas, injegavelmente um grande jogador, recuou Floriano para a "guarda", e ressuscitando Herminho ( o antigo Sapinho) e Gustavinho e armou um team que está fazendo forca tendo imposto ao Botafogo, a sua única derrota do campeonato. O Flamengo e o Riachuelo, aliás, salvaram o campeonato já que o Fluminense, abalado por questões internas, dos jogadores com a direção técnica com a direção técnica, e o Vasco, perdendo Alfredo logo após a segunda rodada e sem Timbira, não confirmaram a produção que deles se esperava pela campanha na classificação.
Tovar preparando-se para encestar
O tricolor, contudo, ensaiou uma reação abatendo o Riachuelo no encerramento do turno o que poderá se tornar mais positiva no returno. E o Tijuca também não confirmou o cartaz construído na temporada interestadual e na classificação, só conseguindo mesmo um feito de grande relevo a a vitória sobre o Flamengo que até então era o lider invicto com 6 vitórias em seu arquivo. Quanto aos demais concorrentes ao certame - America, Aliados e Atlética, cumpriram a campanha que deles se esperava. E a não ser que se verifiquem grandes surpresas, a situação para o returno não oferecerá maiores alterações.
VALORES INDIVIDUAIS QUE IMPRESSIONARAM
Alem dos elementos de classe já comprovada como Guilherme, Afonso, Évora, de Vincenza, Pacheco, Chico, Adilio, Marinho, etc. apareceram em relevo no certame alguns elementos novos como Jairo e Helio Tiburcio, no Flamengo, Algodão e Nilson no Vasco.
A classificação dos teams:
1º LUGAR — Botafogo, com 7 vitorias, 1 derrota; 300 pontos pró e 219 contra. Saldo 81 pontos.
2º LUGAR — Flamengo, com 6 vitórias, 2 derrotas; 283 pontos pró e 254 contra. Saldo de 29 pontos.
2º LUGAR — Riachuelo, com 6 vitórias, 2 derrotas: 267 pontos pro e 239 contra. Saldo 28 pontos.
3º LUGAR — Fluminse, com 5 vitórias e 3 derrotas; 294 pontos pró e 268 contra. Saldo 26 pontos.
4º LUGAR — Tijuca com 4 vitórias e 4 derrotas; 278 pontos pró 257 contra. Saldo 21 pontos.
4º LUGAR — Vasco da Gama com 4 vitorias e 4 derrotas: 247 pontos pro 243 contra. Saldo 4 pontos.
5º LUGAR - America com 3 vitórias e 5 derrotas; 265 pontos pro e 264 contra. Saldo 1 ponto.
6º LUGAR - Aliados com 1 vitória e 7 derrotas ; 247 pontos pró e 310 contra. Defict de 63 pontos.
7º LUGAR – Atlética 8 derrotas; 223 pró e 349 contra. Defict 126.
Fonte: Jornal O Globo Esportivo nº 317 de 22 de setembro de 1944
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SPORT ILLUSTRADO E O ANNIVERSARIO DO BOTAFOGO F. C.
O fidalgo club possuidor do "stadium mais bonito do Brasil" festejou, como é sabido, com a mais justa pompa, o seu 36º anniversario de fundação. Esta revista, dentro do seu programma de incentivar pela publicidade tudo que se relaciona com as nossas aggreminções sportivas, offereceu em números successivos interessante reportagem illustrada das competições e festejos que constituíram a parte fundamental da quinzena de anniversario do querido club alvi-negro.
A directoria botafoguense, num requintado gesto de cortezia para com este semanário, houve por bem traduzir, num attencioso officio, o quanto a reportagem e registro de SPORT ILLUSTRADO lhe agradaram, exprimindo outrosim a gratidão do seu quadro social pela nossa enthusiastica e espontânea publicidade, o que muito nos sensibilisou. Desse attencioso officio damos o clichê, como uma prova a mais do muito que nos merece o Botafogo F.C.
Fonte: Jornal Sport Illustrado nº 125 de 29 de agosto de1940
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A Liga de Volley-ball do Rio do Janeiro, entidade que synthetiza a indiscutível victoria de SPORT ILLUSTRADO nesse seclor sportivo, continua mantendo o fogo sagrado do seu dynamismo.
Equipe do Botafogo F.C.
Expliquemos a nossa affirmativa acima. Como os leitores sabem, este orgão, logo depois de surgir na arena sportiva, resolveu coordenar o volley-ball até então disperso, até então um sport apenas praticado no período do verão nas bellas praias de banho da Cidade Maravilhosa. Para isso, idealizou um certamen feminino, regulamentando-o com grande felicidade e a mais brilhante acceitação.
Esse torneio tinha a coroar-lhe o successo uma majestosa Taça com o nome de SPORT ILLUSTRADO, além de medalhas de verrmeil, prata e bronze, com cunho especial, para os vencedores e participantes. O successo retumbante desse certamen residiu no facto de ter sido dedicado exclusivamente a equipes femininas. Inscreveram-se nada menos de 14 teams de encantadoras creaturinhas da nossa melhor sociedade, entre as quaes representantes de importantes qremios sportivos e estabelecimentos coliegiaes. Quasi duas centenas de senhoritas participaram do Torneio SPORT ILLUSTRADO, que, iniciado pelo systhema de Torneio Inítium, na quadra do Tijuca T. C, sob as vistas de milhares de fans e de altas autoridades, proseguiu em forma de Campeonato, com turno e returno, durante vários mezes, sem uma nota desagradável. 

Concorreu, assim, essa "bigparade" do volley feminino carioca, para sua intensificação e irradiação, elevando notavelmente o nivel technico dos concorrentes e o numero de praticantes de ambos os sexos. E nisso residiu justamente a victoria deste órgão especializado. Em conseqüência, surgiu, entre aquelles que acompanharam o successo da nossa iniciativa, a idéa de usar de momento tão propicio para a fundação de uma entidade especializada nesse sport e que, dirigindo-o e controlando-o em caracter official, organizasse dahi em deante torneios, jogos e campeonatos regulares. E assim filiaram-se a essa entidade clubs e organizações de elite e de alta expressão sportiva, tornando a sua existência um facto irretorquivel. Nesse ambiento já vários torneios inícios e campeonatos se teem realizado, sendo justo destacar em todos elles, a figura preponderante das representações masculinas e femininas do Botafogo F. C. Suas equipes se apresentam em cada temporada sob condições technicas invulgares, o que lhe tem facilitado a leaderança no volley carioca. O que fizeram na temporada de 39 foi brilhante, e agora, na temporada de 1940, surgem já as graciosas e encantadoras representantes botafoguenses em forma exhuberante e conquistando merecido triumpho. É isso tão verdade que, ha muito pouco, sob o controle da entidade, batendo-se contra a aguerrida equipe feminina do Tijuca, acabaram por forçal-a a se ver vencidas as belas alvinegras, já consideradas “Estrellas” tão brilhantes e que vão firmando suas performances.
E não se pretenda com isso julgar a turma vencida rival sem valia, pois, a rigor, esse conjunto tijucano possui também méritos exepcionaes e soube leoninamente perseguir o triumpho. Aas botafoguenses, porém, mais sxeguras dos segredos do volley, tiveram a classe indispensável para a victoria final.
Fonte: Jornal Sport Illustrado nº 134 de 31 de outubro de 1940
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Botafogo 1 x 3 Fluminense
Olhando o clássico Botafogo x Fluminense pelo aspecto technico propriamente dito, os dois rivaes se eqüivaleram; entretanto, se fizermos uma analyse rigorosa sobre o quadro que mais combateu e mostrou-se mais perseverante e énthusiasta, lemos que apontar como merecida e justa a victoria tricolor. O alvi-negro que se apresentou em Álvaro Chaves não foi o mesmo que se empenhou briosamente contra o rubro-negro oito dias antes. Permittiu que o adversário constituísse vantagem no placard, o que não suecedeu contra o Flamengo. E soube o Fluminense tirar o melhor partido da situação, inclusive forçar o jogo pelo flanco direito botafoguense, onde falharam Zezé Procopio e Graham Bell. Necessário se torna, porém, accentuar que a falta de Nariz e Heleno foi fatal para o Botafogo. Deve-se considerar o optimo trabalho da vanguarda tricolor, com excepção apenas de Rongo que destoou do conjunto. Mario Vianna foi um juiz com grandes falhas.
Fonte: Jornal Sport Illustrado nº 139 de 05 de dezembro de 1940
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Muito pouca gente conhece de perto o caso Paschoal. Pode-se dizer que a historia do forword botafoguense é uma historia inédita no football brasileiro. E ella, mais, muito mais mesmo do que qualquer outra, apenas semelhante ao demonstrado pelo paciente, ao relatal-a vem provar que os caracteres dentro do nosso profissionalismo variam de indivíduo para Indivíduo. Nunca duas pessoas pensam e agem da mesma maneira ou desenvolvem sua actividade num club sob a mesma força de persuasão. O crack em geral não tem personalidade. Assim de uma certa maneira não é grande o numero dos que evidenciaram e ainda evidenciam possuil-a aqui, em São Paulo, ou em outro ponto da Federação onde o “association" já adquiriu o privilégio de uma profissão commoda. Conhecem-se vidas privadas de um Leonidas, de um Domingos e de um Martin Silveira quase todos, homens que dentro do sport exhibiram um lado differente na ação. São os dois primeiros e foi o terceiro, players que fizeram sempre que houve opportunidade prevalecer, acima da vontade dos dirigentes as suas próprias vontades.
NÃO SÃO AS CIRCÜMSTANCIAS, SAO OS DESTINOS E OS CARACTERES
Dirá um ou outro que tudo isso depende, que são as circunstancias que determinam a acceitação ou não de vontades assim. Está provado que a "circumstancia” é um motivo desprezível em observações desse jaez. Os destinos sim, e os caracteres tambem. Estes, evidentemente, têm um papel influente na attitude de cada footballer. Tal qual nos outros sectores da vida comum. Em geral o illusionismo é uma força decisiva quando se persegue uma situação de facto. Mas é preciso convir que tal illusionismo deve ser reciproco. No football o profissional se insinua, se colloca em um ponto relativamente privilegiado porque o “outro lado" lhe permitte a ascensão. É quasí como uma inclinação, como são as inclinações para nascer rico e morrer rico.
PASCHOAL JÁ NASCEU PREDESTINADO A NÃO TER MASCARA...
Voltemos, porem, ao caso Paschoal. De uma feita se disse que o player alvi-negro era um "crack sem mascara". Foi quando melhores performances cumpriu em gramados cariocas, a denominacão causou certo reboliço entre seus companheiros. Tanto assim que elle soffreu muita ciu mada, boycots, etc. Mas Paschoal soube enfrentar a ira desencadeada contra elle. Sem uma palavra de protesto, sem malquerenças, nem zangas. Um dia perceberam que não era o mesmo, que não fazia mais goals, que estava descendo. Desde então passou a desfrutar da antiga amizade que seus companheiros lhe devotavam. Soube conservar bem esse estado de coisas, guardando maior distancia das machinas photographicas Foi a melhor formula que encontrou para conservar a mascara fora de seu rosto... - Eu sou um predestinado disse de uma feita. E accrescentou: Não fica muito bonito em mim o "cartaz" que nos outros é quasi que uma obrigação..,
O DESTINO, QUE DA FAMA E DINHEIRO A MUITOS, ROUROU-LHE A MELHOR OPPORTUNIDADE
Comtudo, muita coisa tinha que succeder. E talvez a sua maior felicidade tenha sido a realizacão desse sonho de conhecer terras, de viajar por paízes que apenas o cinema lhe falava de quando em quando. Esteve para realizal-o mas, o máo fado achou mais interessante roubar-lhe essa grande ventura. Os fados que foram tão indulgentes para com Sardinha, para com Borges e para com Geraldino, que possivelmente, do Botafogo nem a côr da camisa conheciam, a tragédia se verificou nos moldes de todas as tragédias. Ha algum inconveniente em você mesmo relatál-a, Paschoal? Não se não me custa nada..
Eu vinha de Nictheroy, uma semana antes do embarque do Botafogo, para tratar de assumptos que se referiam á nossa viagem. Tomaria medida de uma roupa e depois, se houvesse tempo, iria a uma loja qualquer comprar lenços e gravatas. Na barca, porem, divisei vários jogadores do seleccionado fluminene. Puzemo-nos a conversar. Perguntaram-me se eu ia treinar e eu respondi que estava dispensado dos exercícios. É porque nos vamos fazer uma pratica, de conjunto com o Botafogo. Com o Botafogo?! Indaguei surpreendido. Parece difficil porque, ainda hontem estive no club e ninguém, me disse nada . .
Contestou que aquella communicação teve para mim o efeito de um convite. De tal maneira que em vez de ir ao alfaiate e à loja decidi continuar a viagemm com os meus coestaduanos. No Botafogo, saudoso da pelota, pedi a Pimenta para fazer uma experiência com o joelho.
Pois não. Troque de roupa respondeu-lhe o technico.
E eu troquei mesmo.
Recordo-me que o toss fora executado por mim.
A pelota recebida por Heleno caiu incontinente nos pés de Geninho e este sem perda de tempo cruzou-a pelo alto no centro, eu acompanhei o lance, saltei para cabeceal-a e quando percebi estava no chão. Depois disso não pude caminhar e no vestiário fui sientificado de que havia soffrído uma fractura no tornozelo.
Paschoal silencias e não profere mais uma palavra. Tão pouco uma phrase accusativa ao adversário. Mostra-se camarada com o destino e apesar dos pesames, muito contente com o Botafogo. E pelo menos, o que se observa examinando as contrações de seu rosto. Como é um moço simples, bom e educado, possivelmente a alma deixe de evidenciar sentimentos compremettedores. O sentimento que vive inculcado na vaidade de cracks de appellidos “preciosos".
- Mas que vou fazer ? Nasci para dez réis e quem nasce para dez réis... Depois concluo: Ademais, eu não tenho muito geito para reclamar...
Fonte Jornal O Globo nº 128 de 31 de janeiro de 1941
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Carvalho Leite
O exemplo que se verificou por ocasião da sua primeira visita ao paiz dos aztecas, o Botafogo esta brilhando actualmente no México. A circumstancia é tanto mais auspiciosa porquanto se sabe que o club alvi-negro a par do prestigio em que está sustentando o football carioca, está ajustando a sua equipe para a temporada de 41, equipe esta que, como é do conhecimento geral, se apresenta profundamente modificada, com a inclusão de vários cracks da nova geração. Assim é que em dois jogos o Botafogo já conseguiu um empate e uma victoria. No primeiro macth travado no dia 9 deste, o club alvi-negro empatou com o team argentino Estüdiantes de La Plata, que também se encontra em excursão pelo México, pela contagem de 1x1. E agora no ultimo domingo o quadro alvi-negro abateu o Hespanha, team local, pelo contundente score de 7x1. Nesse prélio houve uma particularidade interessante a destacar-se. Carvalho Leite que já fora o autor do goal botafoguense contra o Estudiantes; assiganalou contra o Hespanha nada menos de cinco tentos. Pirica e Sardinba fizeram os outros dois goals. O quadro alvi-negro foi este: Aymoré - Granam Bell e Nariz - Zezé Prócopio (depois Borges) — Laxixa e Zarcy — Patesko (depois Tadique) - Sardinha — Carvalho Leite — Geninho e Pirica.
Fonte: Jornal O Globo nº 131 de 21 de fevereiro de 1941
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Geninho". Ephigenio de Freitas Bahiense, é um dos cracks
da nova geração. Mineiro de nascimento Geninho actuava sem maior cartaz no
Palestra Itália, de Bello Horizonte, quando teve em 1940 a sua grande opportünidadi.A.C.B D. sem poder contar com os elementos do Rio e de São
Paulo, resolveu formar um quadro com elementos dos outros Estados paia enviar
ao sul-americano no Chile. Pimenta concentrou os seus escolhidos em Caxambú, e
entre elles figurava Geninho. O "meia" mineiro passou então a ganhar
projecção. E quando após o esphacelamento do scratch — por ter a C. B. D.
resolvido não mandar mais a sua representação ao Chile — Pimenta foi contratado
pelo Botafogo. A primeira providencia do veterano "coach” foi mandar
buscar Geninho. Perácio já andava ás "turras” com o Botafogo e Geninho
veiu substituil-o. Veiu e correspondeu plenamente. Hoje está integrado no
ataque alvinegro, sendo considerado um dos seus pontos altos.
Fonte: Jornal O Globo nº 131 de 21 de fevereiro de 1941
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BOTAFOGO CONTINUA BRILHANDO NO MÉXICO
AYMORÉ, o grande arqueiro dos campos cariocas, voltou a produzir para o público mexicano, as mesmas espetaculares defesas que fizera quando da primeira excursão do Botafogo F.C., a terra dos astecas em 1036. Aymoré até a data presente não perdeu um jogo.
3 victórias seguidas:Contra o Estudante: 1x1
Contra o Hespanha: 7x4
Contra o Jalisco: 3x2
Contra o scratch mexicano: 2x0
0 Botafogo voltou ao México, afim de reeditar os bellos feitos lá conquistados em 1936, onde das seis partidas jogadas só perdeu a da estréa. Agora empatou com o Estudiante (Argentino], venceu o Hespanha e antes derrotou o Jalisco por 3x2. Que assim prosiga honrando o nosso foot-ball!
Fonte: Jornal Sport Illustrado nº 152 de 06 de março de 1941
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Zezé Procópio a figura gigante do Botafogo
Como se resolveu o grande problema de uma equipe
Uma imprevista enfermidade que acamou Zézé Moreira no Mexico e Pimenta se viu na contingencia de deslocar Zézé Procopio para o posto de center-half. A noticia poderia ter alarmado a família botafoguense, no primeiro instante. Entretanto, as victorias do Botafogo no México se succederam com o player montanhez na nova posição. E, atravez a descripção de um grande jornal mexicano sobre a actuação do quadro alvi-negro no match contra o scratch local, conclue-se nitidamente que o Botafogo possue um grande center-half. Na realidade, para o critico Zézé Procopio foi o segredo daquelle inesqüecivel triumpho pois, segundo se dizia, elle orchestrou admiravelmente o conjuncto. Entretanto, as magníficas exibições de Zézé Procopio na nova exhibição repetiram-se sempre com accentuado relevo, como se elle fôra de facto um "eixo" de larga experiência. Para os botafoguenses, a adaptação de Zézé Procopio em tão difíicil posição foi de resultados positivos.
Imprevistamente, isto é, por força das circumstancias, Pimenta resolveu um grande e difficil problema de sua equipe, problema que surgiu com o afastamento de Martin e a irregularidade de Zezé Moreira. Não precisará de futuro, o Botafogo, cuidar da contratação de um novo center-half. Zézé Procopio ahi vem elogiado pela critica mexicana, que é bastante rigorosa nos seus commentarios e apreciações. Resta saber se o pláyer montanhez nos fornecerá aqui tão preciosas exhibições na difficil posição. Acreditamos que sim, pois se trata de um player de alta classe, considerado mesmo um dos melhores médios do Brasil.
Pimenta e o Botafogo estão, pois, de parabéns, com a solução de um problema para o campeonato de 1941.
Aliás, depois que a estrella de Martin se apagou, só mesmo um "crack" do quilate de Zézé Procópio poderia substituir o famoso center-half da Copa do Mundo e um dos mais habeis jogadores que o foot-ball brasileiro forneceu, aos olhos dos seus enthusiastta admiradores.
Fonte: Jornal Sport Illustrado nº 154 de 20 de março de 1941
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O Botafogo continua a brilhar em canchas mexicanas
Para o sport brasileiro constitue, sem duvida, obra meritoria e de sympathica repercussão, o brilhante desempenho que o Alvi-Negro vae dando aos seus compromissos além fronteiras. Ninguém de bôa fé negará applausos ás constantes victorias do Botafogo no México e que, se suecedendo contra os mais aguerridos grêmios locaes, culminou pela sua superior actuação contra o seleccionado do paiz amigo. Jogando uma série grande de matches, ainda não deu aos rivaes o direito de vencel-o, e a força da sua superioridade reside mais nos conceitos altamente elogiosos da imprensa do México, que nos resultados do placard, ainda que jamais contrários á equipe alvi-negra. 
SPORT ILLUSTRADO tem feito das suas performances a maior publicidade, dando o exacto relevo que ellas de facto merecem. E não tem nesse mister se limitado a simples conceitos, pois em vários números tem realizado o esforço de offerecer, parallelamente com as suas exhuberantes provas de admiração e apreço, uma série interessantíssima de illustrações dos diversos prelios, muito embora não tenha recebido dos actuaes dirigentes do Botafogo uma photographia sequer, quando na verdade vivem alguns delles a distribuir por outros órgãos as illustrações que só os nossos próprios recursos, num "tour de force" incrível, teem permittido realizar. SPORT ILLUSTRADO, que sempre se conduziu com a maxima elegância para com o Botafogo F. C, resalta esse detalhe, afim de que os leitores comprehendam as razões que muitas vezes concorrem para que determinados assumptos não logrem ter a publicidade que, em facilitada por quem bem poderia ter feito, muito mais intensa surgiria em nossas paginas, sem outro intuito que não o de servir ao grande publico interessado em taes feitos. A despeito dessa incomprehensivel conducta dos já citados, SPORT illustrado ILLUSTRADO, sem medir sacrifícios, não deixou de apresentar aquillo que em matéria photographica entendeu ser interessante no tocante á feliz e brilhante excursão do Botafogo F.C. ao Mexico.
Fonte: Jornal Sport Illustrado nº 154 de 20 de março de 1941
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Perácio, o “crack” que vive no mundo da Lua
Até 1937, Peracio foi apenas o Zé Peracio do Villa Nova. Mineiro de quatro costados, vivia modestamente na sua cidade natal, praticando o foot-ball com o objectivo de descansar do batente pesado. Trabalhava com as mãos entre as riquezas de uma mina de ouro e nunca sonhou com as glorias que lhe poderiam proporcionar os pés calçados de shooteiras. . . Entretanto, o destino do homem está escripto e o Zé Peracio foi feito "crack" em dois tempos. Andou saltando do Villa Nova para o Palestra de São Paulo, do Palestra para o Fluminense e acabou, por fim, no Botafogo. No primeiro pelotaço que desferiu em goal, o seu nome passou a figurar no cartaz da popularidade. "Sessenta contos bem empregados — diziam os "fans" enthusiastas do Botafogo — O homem é de facto um tijoleiro e vae arrazar com os seus shoots este mundo e o outro..."
E assim foi o inicio de sua carreira no Rio. Peracio ganhou fama e dinheiro, graças, indiscutivelmentc, ao poder do seu shoot. Formou a famosa ala Peracio—Patesco e em competição com Tim—Hercules lá se foram os quatro rivaes para o campeonato do Mundo. O seu cartaz subiu ás culminancias e, quando volveu da França, Peracio se fez "doublé" de crack e gentleman. — Foot-ball. . . ora o football!
Os jogos eram apenas aos domingos. . . E assim, pensando, o Zé Peracio de hontem passou a ser o "granfa" das rodas da bohemia. Boas roupas, bellas e espalhafatosas camisas e ainda, por cima de tudo, uma barata "Packard" que causava inveja a qualquer dos Guinle ou Rocha Miranda. . . Para completar, possuía excellentes amigos, a maioria do Botafogo, todos bem relacionados na sociedade e freqüentadores dos casinos da cidade. O que poderia desejar mais? Esqueceu o passado e gozava o presente. . . Pouco importava o futuro, se tudo lhe corria ás mil maravilhas. . . Entretanto, o tempo correu velozmente, mais veloz do que o velocimelro de sua barata...
Peracio accordou um dia e sentiu que as shooteiras lhe pesavam nos pés. Jogou-as para o lado e pensou que poderia continuar a ser "crack" do Botafogo, sem desferir pelotaços em Peracio e Martin em goal. Durou pouco esta illusão. Ao fim de certo tempo, o seu nome não apparecia mais nos jornaes, o dinheiro foi acabando como pólvora. De um instante para outro, viu-se sem a barata "Packard" e ainda por cima mostrarám-lhe o caminho do quartel. Ainda não era cidadão brasileiro. Tinha que cumprir o serviço militar, Tentou ver se era possível ser, ao mesmo tempo, soldado, granfino e “crack” de foot-ball. E, assim julgando, reformou contrato com o Botafogo. Assumiu novos compromissos com o club que lhe deu fama, dinheiro e vícios... Todavia, encontrou sérios obstáculos para reconciliar todos os seus interesses. Acabou de uma hora para outra apenas como soldado. Era a única condição que elle não podia renunciar, pois, do contrario, acabaria no xadrez. . . Abandonou o Botafogo, creando um "caso" cuja solução se espera. . .
Deixou de ser "granfino" porque nas algibeiras ficavam apenas os resquicios do fumo. . . E, ainda, recebeu o certificado de reservista, prova de que estava quites com o serviço militar.
Nem "crack", nem granfino e nem soldado.
— Que faz o Peracio? — perguntarão os leitores. É justamente isso que SPORT ILLUSTRADO vae mostrar a vocês. Eil-o aqui, em actividade, numa tinturaria da Avenida Gomes Freire. Trabalha com o Martin. Mas não é sempre. As outras horas do dia, Peracio as passa no mundo da lua, possivelmente, revivendo o passado que elle queria esquecer.
Revivendo o bom tempo que ele era apenas o Zé Perácio.
Fonte: Jornal Sport Illustrado nº 154 de 20 de março de 1941
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ESPORTE ILUSTRADO tentou, num grande esforço de reportagem, focalizar em vários números, os feitos do Botafogo no México. Não poderiamos deixar de assim agir levando em conta as simpatias que o grêmio alvi-negro desfruta em todo o Brasil, principalmente nos centros adiantados do Interior, onde a nossa revista circula com vasta aceitação. Entretanto, não foi fácil conseguir farta documentação fotográfica das vitórias botafoguenses. Não contamos, para isso. com a mesma sorte de vários jornais e revistas, os quais, além de colaboração efetiva do presidente João Lyra Filho, deste ilustre sportman receberam a dádiva preciosa de uma série de gravuras.

Mas, esta preferência do alto dirigente alvi-negro não afastou de ESPORTE ILUSTRADO a fixação constante dos triunfos botafoguenses no México. Si tal não fizéssemos, fugiríamos à nossa ordeira linha de conduta e ao mesmo tempo teriamos ferido os princípios de independência e sinceridade que sempre nortearam o nosso trabalho, voltado ao enaltecimento de glórias conquistadas, em prol do renome esportivo nacional, quer por esta ou aquela entidade. Assim sendo, aguardamos o retorno da rapaziada botafoguense para recordarmos o sentido verdadeiro e merecido com que registramos a sua bela temporada no estrangeiro, muito embora faltasse a ESPORTE ILUSTRADO o material cedido com prodigalidade a outros colegas de ofício. Não houve o objetivo — estamos certos — de nos colocar à margem dos feitos alvi-negros; si tal houvesse, não teria sido o mesmo conseguido. Subsistiu apenas uma preferência de certo modo justificável, pois esta revista, ao inverso de outras, se lança mais aos registros sobre os clubes propriamente ditos do que no comprometedor processo de vulgarizar os nomes dos desportistas que os orientam com esforço e dedicação. Sendo assim, caimos por vez no esquecimento de uma minoria de dirigentes, fato que não nos intimida, nem mesmo influe na alteração do nosso programa de trabalho.

Tal esclarecimento vem a propósito de uma série de cartas recebidas pela direção desta revista, todas elas de leitores botafoguenses, solicitando o registro mais amplo da temporada do Botafogo no México.A resposta aí está, tardia mas oportuna. O material que apresentamos valeu apenas pelo cumprimento de um dever e pela necessidade imperiosa de divulgar a bela página que o Botafogo soube tão bem escrever nos anais do foot-ball brasileiro.
Hontem chegados a nós os patrícios botafoguenses, foram alvo de justa simpatia do povo "fan" de nossa terra. Não faltaram ao desembarque da turma de Pimenta as autoridades do esporte, elementos representativos de entidades e clubes, e toda a família botafoguense, que se reuniu fraternalmente para abraçar os heróis de uma brilhante e espinhosa jornada.
Os cumprimentos de ESPORTE ILUSTRADO aqui se juntam a tantos outros que o Botafogo tanto fez por merecer.
Esta viagem gloriosa dos patrícios alvi-negros marca o inicio de um novo caminho para o foot-ball brasileiro. Pelo menos a seqüência dos triunfos do Botafogo não deve ser interrompida de futuro pelos organizadores de temporadas. Praticar o foot-ball não significa apenas auferir lucros em dinheiro.
Imperioso se torna zelar pelo patrimônio esportivo da nação, como soube tão bem zelar o Botafogo no México.
Fonte: Jornal Sport Illustrado nº 157 de 10 de abril de 1941
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Você conhece o Rosalino Fonseca de Lima?
Por Pythagoras da Veiga Rabello
"O Rosalino está?" — á pergunta foi feita ao encarregado da Portaria, _ no "estádio mais bonito do Brasil" e veio como resposta um: —Não conheço! Em vista disso, resolvemos esclarecer mais: "O Laxixa está?" Aí a resposta veio rápida: — Está, sim senhor. Ficou, assim, compreendido o espanto e o desconhecimento do referido encarregado, quando nos referimos ao verdadeiro nome do jogador botafoguense.
Pouquíssimas são as pessoas que conhecem Rosalino Fonseca de Lima, o médio gaúcho que atua no Botafogo. Fale, alguém, entretanto, em Laxixa, e todos saberão de quem se trata. Aliás, é uma das particularidades do futebol: o "crack" perde o nome de batismo, para usar um apelido, dado pelos fans, ou pelos cronistas de esporte. Resulta disso os "diamantes negros, mascaras de gelo, bibis, zézés, tijolos, zizinhos, batataes,carreiros, etc...
A origem dos "pseudônimos" é muito variada, sendo que muitas vezes até, não significa nada para o jogador, por não ter relação alguma com seu modo de atuar.
Quando Rosalino veio á nossa presença, perguntamos logo, para iniciar uma entrevista, onde Laxixa tinha "arranjado" o apelido. Tivemos, então, desvendado o segredo: "Esse nome consegui no Uruguay, quando atuava em Rivera. Tinha 17 anos nessa época e fui campeão local, o que me trouxe grande satisfação. Minha carreira esportiva, como vê,, teve bom inicio, ganhando eu, com essa idade, minha primeira medalha, de futebol..." — começou dizendo Laxixa. "Tendo nascido em Bagé, no Rio Grande do Sul, terra de Martin, Alfeu (de Porto Alegre) e outros, só fui atuar em campos gaúchos depois de minha volta de Rivera, ingressando, como amador, no E. C. Vila Nova, de Porto Alegre, agremiação que ainda hoje recordo com saudades, pois deixei muitos amigos, inclusive o sr. João Cauduro (Presidente naquela época), que sempre demonstrou ser um verdadeiro companheiro e amigo. Ingressando o Vila, na liga local, conseguimos tirar o 3º lugar. "Mais tarde — continua Laxixa com a palavra — voltei ao Uruguai, para visitar minha família, que lá reside ainda, e depois retornando ao Brasil, ingressei no Fluminense, da cidade sulina de Livramento. Nesse clube fiquei até o Internacional, da metrópole gaucha, ir me buscar".
Ao ingressar no futebol carioca, — indagamos — "que impressão teve?" "Senti a diferença do padrão de jogo praticado aqui, nas duas primeiras partidas em que atuei, logo após minha chegada: uma contra o America e outra contra o Bangú. Vencemos, mas não me satisfez a mim próprio a minha atuação. Desse modo, senti os efeitos dessa estreia na excursão que fizemos ao México, pois não fui escalado para o quadro, seguindo apenas como reserva. Lá, entretanto, tive oportunidade de jogar, conseguindo corresponder plenamente a expectativa.
Sobre o futebol mexicano, que nos diz? O México é um país que possue um padrão de jogo que tende a produzir muito mais dentro de pouco tempo, principalmente agora, com a chegada de vários jogadores internacionais, que fugidos da guerra, para lá se dirigiram e, por certo, exercerão decisiva influencia, para aprimorar o estilo do "association" no México.
Atuou sempre de médio esquerdo? Não. Joguei indiferentemente na esquerda e direita, e uma vez somente de centro-médio. Já em Porto Alegre, quando atuava peio Grêmio F. B. Porto Alegrense, tri-campeão local (diga-se de passagem), ocupei muitas vezes ora uma ala, ora outra, o que me facilitou e facilitou ao técnico Pimenta, para a escalação da equipe, no gramado. Quanto ao futebol que já se pratica, é o tradicional "bola para a frente". O que equilibra as jogadas é o ardor com que disputam os jogos. Achei uma parecença com o "rugbi", pois enquanto um avança na pelota, o outro visa o adversário (não tentando tira-lo do jogo, mas estorvando-lhe os movimentos). Além disso, a altura da grama, fora do comum, dificulta os passes rasteiros, impossibilitando assim, a verdadeira produção duma equipe que use esse estilo, como a do Botafogo. Mesmo perdendo, porém, conseguimos agradar bastante, pelo jogo vistoso que exibimos e as fintas, que aplicamos. Encerrando a entrevista, pedimos a Laxixa que nos dissesse mais alguma cousa a respeito de seu novo clube, o alvi-negro, ouvindo dele o seguinte: "Estou satisfeito no Botafogo no Botafogo por ter conseguido corresponder a confiança que em mim depositaram, quando em excursão, e plenamente de acordo com os meus companheiros de quadro." "Daqui para o futuro, espero não deixar os "fans" botafoguenses decepcionados com minhas atuações pois estou em fôrma e quero ter nova oportunidade para lutar e vencer e ser útil ao meu Botafogo!
Agora, o torcedor de futebol já sabe alguma cousa da vida esportiva de Laxixa, o popular médio gaúcho, e já pode responder a pergunta: "VOCÊ CONHECE O ROSALINO FONSECA DE LIMA?”
Fonte: Jornal Sport Illustrado nº 165 de 05 de junho de 1941
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